23.10.19

NAS PÁGINAS ALHEIAS


Estou com os dois livros do Marcus Vinicius Batista. O que separei para ler no banheiro é QUANDO OS MUDOS CONVERSAM, uma seleção das crônicas publicadas no Jornal da Orla, entre 2007 e 2012, outros tempos, outros problemas. E mesmo lidas – uma de manhã e outra à noite -  em um ambiente de tensão, trazem o olhar de atenção carinhosa sobre o outro e sobre a cidade e seus personagens, vivos e mortos.

As capas dos livros do Marção e da Beth



O segundo, a ser editado mas o primeiro a ser lido é  O LOBO, O URSO E A CURA, escrito parceria-parceria com a sua esposa, a também jornalista Beth Soares. É o relato pessoal, visceral, algumas vezes atônito, às vezes encharcado de incompreensões, mas sempre permeado de muita luta e persistência – ninguém larga a mão de ninguém - diante do diagnóstico de lúpus que Beth foi acometida. É a jornada, de mais de dois anos, por laboratórios, consultórios, hospitais, UTI´s, farmácias e a tentativa de se salvar da burocracia, que o Estado implanta, com uma perfeição assustadora, para que os doentes resolvam, depois da revolta, dos xingamentos, da anulação, se curarem por conta própria.

Comprei o livro no dia do lançamento no charmoso Saluca Bistrô & Café, no canal 5 – precisam conhecer Santos, o plano urbanístico de Saturnino de Brito e aprenderem a se orientarem pelos números dos canais - e já na fila dos autográfos – desenhando e andando – um Marcão foi grafado na primeira folha do livro, onde ele e a Beth depositaram os seus delicados autógrafos.

O desenho do Marcão e os deliciosos autógrafos

Não há exagero ao chamar o Marcão de Marcão, pelo tamanho do corpo, do coração e da gentileza.


Foi uma tarde muito boa e recomendo que todo lançamento de livros devam ocorrer aos sábados, em um bar e que seja obrigatório encontrar os amigos e bater papo com o Leandro Marçal, a Renata Godoi Mota e a Raquel Gomes, e também, se vocês não os conhecem, mais um motivo para virem até Santos.

Na mesma noite, depois da peça TRAGA-ME A CABEÇA DE LIMA BARRETO – por favor, assistam! – li o prefácio, escrito pelo médico que acompanhou a jornada e que no final, foi sugado, com suavidade para dentro do rol de amigos.

No dia seguinte fui à praia levei pouca coisa, porque nas praias de Santos você encontra todo mundo e conversa com todo mundo, mas tenho sempre comigo caneta e caderno, mas levei também o livro ainda quente de curiosidade, para conferir as primeiras páginas, enquanto ficava de olho na filhota e no sobrinho, brincando de se transformarem em crocrete de areia.

Olha o sorveteiro, mas não era da Rochinha

Fiz o primeiro desenho, quase sem querer, quando uma moça quis saber qual era o livro que estava lendo e depois que fiz o segundo – e gostei - , o livro se transformou, quase de imediato, em um diário gráfico sobre um diário de dores e preocupações.
O Canal 3 estava assoreado e havia montes de areia para a alegria da meninada

Na praia tem sorvete e água de coco gelada, cara, mas tem.

Então abandonei o caderno de desenho por uns poucos dias e permiti que o livro fosse lido, sem pressa, entre um traço e outro, buscando fôlego para poder ganhar a empatia necessária e torcer que tudo tenha se ajustado da melhor maneira possível, que todos estejam bem, que o Urso nos proteja a todos e o Lobo tenha sido vencido.
No banheiro da casa da Sogra


Carol, colega de trabalho.

Mas preciso reconhecer que não foi a primeira vez. Fiz isso no livro do meu amigo Leando Marçal, NO CAMINHO DO NADA, mas só durante a na noite de autógrafos. Pensando bem, talvez adote esta estratégia para me defender da Flávia, que estabeleceu que um livro novo só entra em casa, quando um outro sair. Com um desenho, um registro, o livro fica muito pessoal, sem a possibilidade de ser descartado, trocado e talvez assim a minha biblioteca se mantenha intacta.

Muitas das crônicas foram lidas no ônibus. Muitos desenhos foram feitos no ônibus e desenhar no livro que se está lendo, facilita muito.

Indo ao cinema, no Gonzaga

Porque tudo muda muito rápido dentro do ônibus. Quem estava de pé, senta, quem estava sentado, desce, as pessoas mudam de lugar, por causa do sol, da chuva, porque está incomodado com quem está sentado ao seu lado, porque entrou alguém conhecido e foi colocar a conversa em dia.

Tanque de guerra para tempos de paz

Em vão, tentei quando estava mais sossegado, no descanso do lar – comercial de margarina - ilustrar o livro, com pequenas anotações, mas sem sucesso, desisti.

Desta gostei um pouco

Sou um pouco melhor – auto-elogio é tão feio - observando o mundo de frente, como de frente ambos enfrentaram uma jornada cheia de altos e baixos, que trouxe muito cansaço, para quem sofria as injeções e para quem cortava a cidade até a porta da UTI.

Menino dormindo no colo da mãe, no ônibus em Cubatão.

As pessoas se surpreendem e sempre me perguntam se é difícil desenhar no ônibus. Já fui chamado até de ninja, mas digo que cada dia que passa, andar de ônibus, depender de transporte público, não é para os fracos.

Na minha cidade, Cubatão, talvez seja ainda pior. 


Explico. Temos uma empresa de ônibus, que detém a concessão do serviço, mas este serviço não é interligado com o transporte metropolitano, então, nada de baldeação e ainda há o transporte alternativo, que de alternativo não tem nada. Percorre os mesmos itinerários do ônibus e quase sempre com o ônibus preso no retrovisor e para piorar, a empresa de ônibus atual perdeu a última concorrência e o serviço que não era nenhuma maravilha tornou-se um verdadeiro martírio, com ônibus sem horário certo e quebrando em qualquer esquina. Terror, terror e terror, com os ônibus, velhos e sucateados, sacudindo sem parar,transformando uma viagem de um pouco mais de cinco quilômetros em uma verdadeira aventura, sem final esperado. Coisa para samurais de todas as cores. 

Alguém tão grande como o Marcão.

Na maioria dos veículos do sistema alternativo, a cadeira ao lado do motorista fica vazia ou ocupada por algum conhecido, que vai debatendo com o motorista os rumos da política cubatense e a ultima decisão do Ministério Público, que exige da prefeitura, a retirada das vans de circulação. Sentei neste lugar mas virei o rosto para o outro lado, para o retrovisor.

No retrovisor, o que vejo pela frente.

Até pouco tempo atrás, me recusava a andar de van, de transporte alternativo, mas acabei me rendendo, com medo do implacável tic e tac do relógio de ponto digital instalado recentemente.

Chegar no horário

É preciso chegar no horário e sair no horário. Esperar o consumo das horas, esperar a vida passar e registrar tudo certo, inclusive o horário do almoço e ao depositar o dedão, ouvir de volta, mecanicamente, que está tudo correto, que você teve um bom dia, que você não esteve internado e o seu corpo não está inchado.
Chegar no horário

Sair no horário

Chegar em casa.

Sacolejar um pouco

E lembrar, que é dia de balé

Alguns desenhos estão fora da ordem que foram feitos, embaralhando as páginas, embaralhando a vida em sua surpreendente desordem, mas espero que este relato sobre páginas alheias seja uma fagulha em tua curiosidade, um convite para percorrer, mesmo que tatibitate, por passos vencedores, e que possa-lhe dar a noção da emoção que os autores fizeram questão de depositar em cada palavra, em cada crônica e lhe façam buscar o livro na livraria de rua mais perto – meu amigo José Luiz Tahan agradece.

E a filhota está esperando para dar seu pliês.

Porque é na rua que a vida acontece, onde encontramos as pessoas, onde nos reconhecemos nos outros, no caminho de volta para casa ou quando levo a filhota no balé, para que ela dê um monte de saltos e piruetas, enquanto fico, mais de uma hora no sofá florido, agora encapado com uma fronha azul turquesa.

A filha e a neta da proprietária do Balé

Em um canto, em um dia de chuva

No sofá, agora azul


Ao mostrar o primeiro desenho aos dois e mesmo devendo um desenho da Beth, fui autorizado, de imediato, com dois grandes sorrisos abertos ao sim, ao sim das palavras, ao sim da comunhão. Toda boa palavra deve ser repartida na mesma dose do pão.

E nas palavras do Profeta Gentileza, que gentileza gera gentileza, tudo neste livro, guia deste relato, se resume a isso, na gentileza de dividir conosco a busca da melhor solução, a gentileza de mostrar que o carinho é imprescindível para as almas, que mesmo fortes, não se querem rígidas, gentileza em não se importarem de ter boa parte do livro reproduzido para contar uma outra história e na gentileza, de permitir que um livro tão pessoal, tão intímo, fosse aberto e finalizado com as palavras de outra pessoa, que uma poeta – a Madeleine Alves é maravilhosa - acentue a trajetória percorrida por ambos, com palavras e sentimentos de acalanto e conforto.

As mãos de uma senhora segurando a bolsa e o poema final da Madeleine

Pelo pouco que os conheço, me permito acreditar que eles confiam na pele fina e resistente do amor, na promessa apalavrada de eternidade, que se mostrou flor e perfume nos momentos de entorpecimento mas também na certeza que mesmo doendo, iria passar, como realmente passou quando o Lobo feroz voltou ao seu lugar de insignificância perante aos deuses, o Urso urrou de alegria e a cura embarcou, em uma viagem por outras terras e pelo corpo transformado de Beth e o mundo, também em viagem, fez, neste dia, uma rotação mais alegre, muito mais suave, como deveria ser todas as boas canções.

         
Carlos Roque Barbosa de Jesus
22 de outubro de 2019



Um comentário:

  1. Que coisa mais linda, Roque. Sem palavras para traduzir minha emoção de ler seu relato, tão sensível e poético. Muito, muito, muito obrigada por esta e tantas outras gentilezas! Um grande beijo!

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