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14.12.16

Croquis da réplica do "Demoiselle" de Santos Dumont



No dia 11 de dezembro de 2016, o Croquis Urbanos Curitiba visitou o Aeroclube do Paraná durante seu 8o. Festival Aéreo.  Para nossa surpresa, encontramos uma réplica do "Demoiselle",  um dos modelos da série de aviões desenvolvido pelo Santos Dumont entre os anos 1907-09.  A réplica, que se tornou tema de nosso desenho, foi construída em 1997 pelo Aeroclube Paraná e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (na época ainda chamada de CEFET), tendo como organizador do projeto Luiz Carlos Fernandes de Souza Filho (Jornal Estado do Paraná, 12 de outubro de 1997).

Segundo a Wikipedia, o Demoiselle, também conhecido como Libellule, é considerado o melhor projeto de Dumont e também  os menores e mais baratos aviões de sua época. Ainda segundo a mesma fonte, a intenção de Santos Dumont era que essas aeronaves fossem fabricadas em larga escala e com isso popularizar a aviação. Como o inventor disponibilizava os planos a quem se interessasse, Demoiselles foram fabricados por diferentes oficinas; pelo menos quarenta unidades foram construídas.

Em termos de técnica de desenho usamos canetas de ponta porosa de várias espessuras (as da marca Sharpie são as minhas favoritas), canetas tipo nanquim (marca Unipin), caneta gel branca, marcadores cinza (Promarker da Letraset).  Papel branco para marcadores (Canson),  papel vegetal e papel craft.  

Foto 1- Aproveitamos a transparência do papel vegetal para copiar a estrutura básica do desenho feito anteriormente em papel branco


O primeiro desenho feito sobre papel branco (Foto 2) serviu como base para o segundo em papel vegetal onde detalhes finos foram adicionados (Foto 1).  Pela sua parcial transparência o papel vegetal revela a cor do papel craft usado como fundo.  Usando do mesmo artifício de transparência a cor branca das asas do Demoisele ganham visibilidade através da colagem de papel branco recortado e colado no papel craft(Foto 3).  Finalmente, detalhes finos foram adicionados para representar o brilho dos arames e das estruturas tubulares (Foto 5).




Foto 2 - Primeiro desenho com representação das estruturas básicas da aeronave.  Tivemos cuidado especial com a localização dos arames e respectivos pontos de tração das asas.

 

Foto 3 - Detalhe da colagem de papel branco sobre papel craft, que é revelado através da transparência do papel vegetal.



Foto 4 - Detalhe das linhas de construção do desenho em papel branco, gostamos de chamar de "croqui do croqui".



Foto 5 - Detalhes adicionados no papel vegetal.  Gostaria de chamar atenção para a representação dos pedais e raios das rodas. A caneta gel branca é usada para representar os delicados brilhos dos tubos e arames. 

 Foto 6 - Tradicional foto de encerramento do encontro 196 do Croquis Urbanos Curitiba.  Desta edição participaram da esquerda para a direita: Eric Shimizu, Alcindo, Luciana Maga, Sandro Colleti, Graça e Marido, José Marconi, Giovana Medeiros, Mariana Godoy, ? (não lembro agora), Rafinha (filho da Giovana), Diviane, Gustavo Ramos, Mikhael Gusso e Lívia Albuquerque. 

22.8.16

Conheça os Correspondentes: Odil Miranda Ribeiro, de Londrina/PR

Sou paulistano, nascido em 1961. Depois de morar em diferentes cidades, em 1994, me transferi para Curitiba e no início de 2015, mudei para cidade de Londrina. 

Revirando meu “baú” encontro um registro, em minha carteira de trabalho. Em uma página, amarelada pelo tempo, a data do registro é 1º de agosto de 1976. O nome da empresa contratante Multistudio Ltda., especialidade do estabelecimento Atelier de desenho, meu cargo “aprendiz”.

Foi assim, que há mais de 40 anos, eu comecei, oficialmente, a me relacionar com o desenho. Na sequência vieram outros registros com várias funções, em departamentos de arte criação de agências de propaganda. Naquele tempo não havia computadores, só papéis, lápis, tintas, pinceis e materiais afins. Uma delícia.

Quando os computadores entraram definitivamente nos estúdios os departamentos de “arte” perderam a cor, ficaram cinza. Abandonei tudo e fui trabalhar com outras coisas. Mas com o passar do tempo a necessidade de produzir e de me expressar com arte ficou insuportável, resolvi então a realizar um velho sonho de pintar quadros.

Acabei ingressando no curso de pintura da Faculdade de Belas Artes do Paraná, onde me graduei. A partir de 2008, último ano da faculdade, comecei a produzir uma série de quadros e participar de exposições e salões de artes. Com menos regularidade ainda continuo essa produção. A necessidade de reorganizar a vida me levou a fazer um mestrado em Comunicação e Linguagens, com pesquisa em Estudos de Cinema e Audiovisual, concluído em 2015, pela Universidade Tuiuti do Paraná.





Desde 2013, por convite de amigos, eu comecei a participar dos encontros do Croquis Urbanos Curitiba. No início meio sem jeito, só fazendo desenhos a grafite e bico de pena, depois, também por indicação de amigos, comecei a fazer aquarelas. Eu já tinha experimentado a técnica antes, mas não tinha me empolgado. Porém, a paixão cresceu com a prática nos encontros dominicais dos croquiseiros.




Quando mudei para Londrina, fiz uma aquarela do Lago Igapó, cartão postal da cidade. Postei a pintura na página do Croquis curitibano e na legenda descrevi a minha ambição de criar um Croquis Urbanos Londrina. Minutos depois recebi a mensagem do Patrick Rocha, londrinense, estudante de arquitetura e urbanismo, fanático e profundo conhecedor a cidade, se dispondo a participar da criação do grupo em Londrina.





Mais de 1 ano se passou e conseguimos fazer encontros do Croquis Urbanos Londrina, todos os domingos, initerruptamente. O grupo cresce e se consolida atraindo mais e mais participantes para a prática do desenho de observação.











1.11.15

Croquiseiro paranormal



Numa tarde na Praça Generoso Marques, Curitiba, este croquiseiro dará continuidade a sequência de desenhos solitários no entardecer de horário de verão,  desta vez ficará de costas para o Barão do Rio Branco.

Ele quer relaxar, se distanciar do dia que termina, entrar na poesia dos desenhos e habitar por alguns instantes um paraíso que o anestesia com muito prazer.

A composição desta vez envolverá dois prédios ecléticos que foram preservados e que agora atendem às demandas de um supermercado e um restaurante self service.







Ao fundo, dois prédios modernos, que ironicamente já são ruínas.  Um deles com pedigree e autoria de comprovada fama. O outro um daqueles espigões abandonados pelos profissionais da especulação imobiliária e que se tornou tela de grafiteiros e pixadores.

O croquiseiro começa a desenhar e não sabe que na verdade ele é o tema principal para alguns passantes.

O primeiro passante celebra a ação artística, puxa uma conversa que também desenha, mas que devido às demandas da vida o faz apenas uma vez por ano.  Diz que tem um estilo "diferente" e retira o celular e mostra uma foto de sua última obra: "O dezfarce". Sim, são dez faces em perfil entrelaçadas, que se escondem uma das outras.  Dez faces que não parecem nenhuma, uma camuflagem em forma de dezena.  Companheiros artistas se reconhecem nas busca de uma poesia gráfica.  Refletem e discutem que não é possível viver sem desenhar, a vida se tornaria uma insuportável monotonia.









Eis que se aproxima aquele homem de cabelos longos, um "alemão queimado", aturdido e de olhos verdes, quase saltando do rosto.  Começa com uma conversa incompreensível mas que pelo entusiasmo transmite uma admiração pelo trabalho.  Novamente parece que a poesia gráfica conquistou mais um, pensava o croquiseiro.  Mas daqui  a pouco o  passante faz uma proposta: ele gostaria que o croquiseiro desenhasse o seu filho.  Reconhecendo o padrão da conversa, o croquiseiro já se prepara para dizer que não será possível atender aquele pedido, naquele momento.  Mas o passante insiste:

— Você poderia desenhar o meu filho? Eu o enterrei faz sete dias. 

O croquiseiro se comove pois vê a razão para os olhos esbugalhados do passante: choro, saudade e provavelmente uma busca pela visualização do filho. Ele adianta que não tem uma foto, mas espera que o croquiseiro possa captar a imagem por alguma ação paranormal, já que ele é um artista.  O croquiseiro fica abalado, pois percebe que o ato de desenhar para alguns é também uma especie de habilidade mágica, quem sabe paranormal ou divina.  O croquiseiro é tomado de emoção, e é forçado a responder ao transeunte que não tem este poder.  Mas o transeunte insiste e aí, faz outro pedido:

— Você é capaz de desenhar a pessoa que matou o meu filho?

O croquiseiro não responde, não tem palavras nem traço para lidar com tamanha rogativa.  O passante desiste e se despede com saudações cordiais apesar de decepcionadas.

Depois disto cada textura do prédio passa a ganhar um significado maior para o desenhista, prédios abandonados e desejos por uma conexão gráfica com o filho morto parecem ser a mesma coisa.

Dor e desejo por alguma justiça de fim de tarde.

23.8.15

Para que serve um diário gráfico? Parte 2


Segunda parte de minha tentativa de responder a provocação do do Eduardo Salavisa (especialista e autor de vários livros sobre o tema) sobre as  funções de um diário gráfico.
O texto a seguir é uma tentativa pública e informal de explicar algo que ainda estou tentando entender e teria, portanto, apenas uma função exploratória quase especulativa.  As tradicionais categorias da função da linguagem como a poética, documental, expressiva já foram discutidas na Parte1, agora ilustramos as que restam: metalinguística e apelativa.

Serve para comentar visualmente os desenhos em si

Uma composição formada por elementos gráficos que explicam-comentam-expandem-complementam-dialogam a obra em em si constitui um desenho "metalínguistico", pois a "metalinguagem" pode ser definida como o uso da linguagem para descrever aspectos da própria linguagem que está sendo utilizada. A linguagem metalinguística faz enunciados sobre a própria linguagem, ou seja, qualquer livro que ensina a desenhar usando desenhos para explicar como fazê-lo é um livro metalíngustico.

No caso do diário gráfico esta abordagem serve para responder as seguintes possíveis perguntas:
  • Que recurso gráfico eu uso para "chamar" a atenção desta parte do desenho?
  • Qual detalhe do desenho eu desejo ampliar de modo a "explica-lo" melhor?
  • Vou encaixar um texto "dentro" deste desenho para explicar algum detalhe?
  • Será que se eu usar uma foto ela "dialogará" com o desenho?




Página onde o desenho representa o próprio desenhista desenhando. 
O desenho registra o próprio ato de desenhar, ou seja, é metalínguistico por natureza. Aeroporto Viracopos em Campinas, Brasil, 2015.



Detalhe de um desenho da Lia Rossi, onde a técnica usada, por ser mais mais detalhada e realista, reproduz a textura e relevos da Casa dos Bicos, a qual havia sido apenas sugerida no desenho maior desenvolvido pelo autor. 
Um desenho "complementa" o que outro apenas "sugere". Casa dos Bicos, Lisboa, Portugal, 2015.




O texto e o desenho principal fazem menção ao que a protagonista esta fazendo: planejando o passeio do dia seguinte. 
Entretanto a colagem do chá "chama" atenção para o ato da protagonista estar bebendo chá, ou seja, um desenho "promove" uma observação específica sobre o tema do desenho maior. Praga, República Tcheca, 2013.


 

Ná pagina esquerda é feito um detalhamento da serralheria  que parece ilegível à direita. 
O desenho representa os lendários Corvos protetores do São Vicente.   
No canto superior direito, um mapa "revela" a localização do tema desenhado.  Em resumo, um desenho amplia um detalhe do outro e o mapa mostra a relação do nosso desenho com o desenho urbano de Lisboa. Portugal, 2013.




Qualquer capa de livro é inevitavelmente um exercício metalínguisto, pois ocorre uma auto-referenciação, ou seja, os desenhos da capa do diário gráfico "resumem" o que será mostrado nas páginas internas. Portugal 2015.



As cores da folha verdadeira define o tom outonal ao desenho.  As cores utilizadas para representar a construção estão em harmonia com as da folha.  Uma imagem "dialoga" com a outra e faz-nos perguntar: as folhas secas sairam das árvores desenhadas? Budapeste, Hungria, 2013.




Como parte de uma oficina ministrada pelo autor, cópias de desenhos de vários croquiseiros foram distribuidas  entre eles, o objetivo era criar uma nova composição onde de alguma forma os desenhos "conversassem" entre si, mesmo que para isto fossem criadas perspectivas irreais ou proporções incoerentes.  Torres Vedras, Portuga, 2015.



Uma viagem aérea é sempre um sonho (ou um pesadelo), aqui embalado pelas aventuras de Cinderela em busca de seu Príncipe. A colagem da revista de borda "revela"  o que Lia Rossi assiste durante sua viajem de volta a Curitiba. 
Voo TAP 71, Lisboa-Galeão, 15 de junho de 2015.





Serve para sugerir, instruir ou influenciar o leitor

Um desenho que tenta convencer o leitor a fazer algo, persuadi-lo a pensar diferente, ensina algo ou contribui para formação de opinião sobre um determinado tema, é uma desenho com função "apelativa". O objetivo é influenciar o leitor do diário, convencê-lo de algo ou dar instruções em tom imperativo.

Frequentemente o diário gráfico registra as boas decisões tomadas durante a viagem e o desenho se transforma numa celebração gráfica da decisão. Criam-se desenhos mostrando um museu e coloca-se o comentário na forma imperativa: "vale a pena retornar aqui!".  Por outro lado, decepções também são registradas e se transformam em tentativas de deixar "advertências" para o leitor.  Frequentemente usamos o diário como um arquivo de impressões sobre um lugar, o qual consultaremos para saber, por exemplo,o nome daquele hotel "maravilhoso" ou daquele restaurante ruim.  Nestas páginas temos o uso de superlativos gráficos.

Algumas das perguntas possíveis:
  • Como eu faço para chegar a um determinado lugar?
  • Como eu registro que este lugar, comida ou contexto é muito bom ou ruim?
  • Quais os horários de funcionamento de um determinado serviço?
  • Como convencer o leitor a fazer ou desistir de algo que julgamos importante? 


 

Registro da decepção que foi planejar a visita ao Museu e aprender que naquele determinado dia ele estaria fechado. Mensagem do diário gráfico: lembre-se de na próxima viagem verificar quais dias os Museus ficam abertos, inclusive até mais tarde ou com desconto! Viena, Austria, 2013.






Alguns dos destinos exigem a troca de mais de um meio de transporte e vários pontos de monitoramento e de tomanda de decisão para mudança de rota.   As instruções registradas no diário são imprescindíveis para mostrar o caminho certo.  Acima, rota de onibus para Feira da Ladra, Budapeste, Hungria, 2013.







Aviso: evite a comida vendida no trem; além de caríssima é horrível no sabor. De Viena para Praga, 2013.





O mais típico uso da função apelativa: fazer publicidade de uma ideia.  Esta página foi usada para divulgar nosso desejo de trazer o Simpósio Internacional do Urban Sketchers para Paraty, conseguimos!
Curitiba, PR, 2013.


Conclusão

Concluo esta contribuição dizendo que as possibilidades de expressão poética, documental, expressiva,  metalinguística e apelativa são apenas uma das maneiras possíveis de explorar conceitualmente as funções de um diário gráfico.  Outra coisa que não podemos perder de vista é que uma composição gráfica pode simultaneamente dar várias respostas a várias perguntas, portanto, cabe ao leitor escolher o que ele deseja resgatar de um diário gráfico.

Para que serve um diário gráfico?
Para navegar graficamente a vida, pois, como dizia o poeta, isto é preciso.


Epílogo

Abaixo, video resumo de nosso diário gráfico da viagem a Portugal.  Nesta oportunidade participamos do Encontro Internacional de Desenho de Rua em Torres Vedras.  O video é dedicado aos companheiros de viagem e aos que lá encontramos.  Também é dedicado aos demais colegas do grupo Croquis Urbanos Curitiba que ficaram cuidando do nosso grupo. Música de Ana Moura "Águas Passadas".
A ilustração que aparece num papel colado no minuto 2.01 é de autoria de Daniel Silvestre.










10.8.15

Para que serve um diário gráfico? Parte 1


Numa palestra do Eduardo Salavisa (especialista e autor de vários livros sobre o tema) se discutiu sobre as funções de um diário gráfico, entre elas a provocadora afirmação de que não serviria para "nada".  Fazer diários gráficos é um experiência recente, comecei a apenas duas viagens.  A primeira em 2013 (Londres, Budapeste, Viena e Praga) e mais recentemente para Portugal (Lisboa e Torres Vedras).

Estimulado por esta provocação, decidi pensar sobre as funções possíveis de um diário gráfico e para isto usarei de maneira bastante informal as tradicionais categorias da função da linguagem para estruturar meus devaneios. Já aviso aos acadêmicos mais rigorosos que  isto é uma tentativa pública e informal de explicar algo que ainda estou tentando entender e teria, portanto, apenas uma função exploratória.
Abaixo você lerá a primeira parte do texto, se você quiser ler a segunda parte visite Parte 2.

Serve para documentar

Vamos começar pelo mais fácil de explicar e entender: um diário gráfico teria uma função documental com caráter denotativo, ou seja, buscaríamos registrar da maneira mais crível possível aquilo que vimos e experimentamos. Sua função adquire um tom de reportagem gráfica com o desejo de facilitar uma interpretação do que foi desenhado.  Registramos respostas para algumas perguntas como:
  • Quais lugares eu visitei?
  • Quem eu conheci?
  • O que comi e bebi?
Onde eu estive? Mapas, adesivos, setas tentam comunicar onde ficamos em Portugal, ou seja, no Bairro da Alfama.

        

Com quem eu estive? Desenhando durante o almoço com os novos colegas portugueses e espanhóis.  Os adesivos respondem as peguntas: o que bebemos e onde comemos. Desenhos dos rostos dos colegas André Duarte, Carlos e Célia. Comemos deliciosos espetos de polvo e lula.  Bebemos o "vinho da casa" do Restaurante o Gordo.

O que eu vejo quando espero pelo meu avião que me levaria para Portugal? Terminal internacional do Aeroporto Viracopos em Campinas, São Paulo.

      

Quem dormia (e quase babava) durante a viagem de volta a Curitiba? Voo da Gol "Linhas Aéreas Inteligentes".

Serve para se expressar

Quase como uma oposição ao tom documental, surge a função expressiva, a qual foge da "neutralidade" do registro de uma circunstância.  Buscamos um registro gráfico daquilo que estávamos "sentindo" durante o processo de observação (alegria, satisfação, alívio, solidão, saudade, etc).  Na função expressiva ocorreria uma conversa do desenhista com ele mesmo, onde comentários textuais e gráficos adquirem uma dimensão de introspecção, por vezes tão densa que provavelmente o leitor não decifrará uma mensagem coerentemente, somente o autor teria a chave para compreendê-la. A busca para algumas achar respostas para as perguntas abaixo motiva o desenho.
  • O que eu estou sentido neste momento?
  • Eu estou gostando deste lugar?
  • Minha linguagem gráfica registra a alegria e emoção que estou sentindo enquanto faço este desenho?


As linhas leves indicam o grande alívio de chegar em Lisboa e reencontrar a companheira com seus cabelos ao vento, a vista da ponte é etérea e testemunha os efeitos da bebida levemente entorpecedora. Estávamos no Mirador da Igreja da Graça em Lisboa.



A marcha da passagem dos representantes da fé católica, a música da banda, o cheiro de incenso alimentam uma linguagem gráfica que representaria a emoção e intensa alegria de testemunhar, ao lados de pessoas amigas, este momento da mais tradicional e popular cultura portuguesa. O tema é apenas sugerido e, para o autor, não poderia ser de outra forma visto que a procissão evoluía rapidamente.


 

Serve para fazer poesia

Se levarmos a abordagem expressiva às suas últimas circunstâncias daríamos uma função plenamente poética para nossos registros. As páginas do diário gráfico se transformariam numa busca de especulações, experimentos e da intensificação da força expressiva dos materiais empregados, não importando necessariamente o que estaria diante do observador.

As "respostas" advindas desta poética aventuram-se nos limites expressivos da linguagem e material gráfico empregado. Assim, o diário se torna um repositório de experimentações poéticas onde o objetivo é gerar surpresas gráficas e prazer estético para o desenhista bem como para o leitor. Neste caso aquilo que se vê é apenas uma desculpa para gerar um desenho bonito e estimulante visualmente. Algumas perguntas criativas:
  • Como eu faço para aplicar harmonias de cores monocromáticas?
  • Vou usar várias texturas de papel, será que o resultado ficará bonito?
  • Comprei este material de desenho, quais linhas e texturas poderei gerar com ele?

Na composição acima quis promover uma exaltação gráfica ao potencial poético das colagens, técnica que alias adoro praticar.  O objetivo era mostrar como catar, compor e colar imagens encontradas numa Praça de Torres Vedras e como elas poderiam se tornar um tema em si, não importando necessariamente o que ali estava sendo registrado, ou seja, pura poesia. 
Claro que a verve poética também foi alimentada pelo ponto de partida documental, neste caso o professor Lauro Monteiro aparece na imagem.


Um poesia gráfica onde cacos de papel brotam do pincel da colega portuguesa Teresa Ogando, sentada no chão de uma Praça de Torres Vedras.


As funções apelativa e metalinguística vou deixar para uma próxima postagem.
Neste ínterim, aguardo reações dos leitores.