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1.6.16

Preto no Branco, ou Branco no Preto????

 
Caderno A5, artesanal (cartolina preta), oferecido pela artista plástica brasileira Márcia Rosenberger.
A Márcia tem desenvolvido um trabalho incrível nos seus diários gráficos - investigação sobre a/s memória/s, onde mistura desenhos, aguarela e colagem de textos e fotografias antigas.
 
"A memória é a consciência inserida no tempo" - Fernando Pessoa
 
Obrigado por Márcia, conseguiu um grande feito: abandonei a caneta de tinta preta :-)

24.9.15

1º post - 1º intercâmbio entre Portugal e Brasil

Olá a todos, uma vez mais, muito obrigado pelo convite para participar como correspondente neste grupo de fantásticos sketchers. O trabalho que vocês têm desenvolvido é merecedor do reconhecimento de todos, em toda a parte do mundo. Portugal não será excepção, nós acompanhamos de forma muito próxima os vossos encontros e os vossos desenhos. Já devem estar fartos de tanto texto acerca deste português, por isso deixo-vos aqui um desenho que assinala uma vez mais o estreitar de relações entre o vosso país e o meu. Para além da língua que nos une (apesar do meu português ser, como vocês gostam de dizer brincando, um português bem castiço), partilhamos outra linguagem e esta universal, O DESENHO. Hoje mesmo, chega a Torres Vedras o sketcher Edward Wandeur, um dos coordenadores do grupo de sketchers de Santo André (SP), que irá ministrar uma oficina de desenho neste evento: (a)Riscar o património. Como vêm, os (re)encontros entre portugueses e brasileiros, vão continuar. Até breve e mais uma vez, muito obrigado pela honra de pertencer a este grupo.

23.9.15

Conheça os Correspondentes: André Duarte Baptista, de Torres Vedras (Portugal)

A desenhar com o meu filho Tomás...
Olá a todos, meu nome é André Duarte Baptista, sou português, nasci em Torres Vedras, uma cidade a norte de Lisboa, (45km), onde vivo e trabalho. Neste momento trabalho como arquiteto na área de planeamento na Câmara Municipal (prefeitura) de Torres Vedras, com especial envolvimento na área de reabilitação urbana. O meu interesse pelo desenho começou desde cedo, no entanto sempre senti que não teria aquilo que muitos chamam de “dom especial” e que só teria sucesso se trabalhasse muito em busca daquilo que qualquer jovem ingénuo procura: A PERFEIÇÃO. Infelizmente deparei-me quase sempre com professores que me levaram a acreditar que a perfeição só se conseguia com a fiel representação de um determinado cenário. Esta busca pela perfeição deixou-me muitas vezes frustrado, afastando-me muitas vezes da paixão que tinha pelo desenho. 

No ensino secundário formei-me em Design Gráfico. Durante alguns anos trabalhei como designer gráfico na área da publicidade. Posteriormente inicio a minha actividade na área da construção civil, como desenhador e medidor orçamentista. Em 2007 decidi recuperar um sonho antigo – inscrevi-me no curso de arquitectura na universidade Lusófona, onde tive a sorte de encontrar dois professores que permitiram a minha reconciliação com o desenho de observação, explicando-me aquilo que hoje encaro como óbvio – o desenho é a interpretação que cada observador faz de um determinado espaço – cada observador vê e representa forma única e irrepetível. Fez-se luz e a partir daí nunca mais abandonei o desenho. Foi nos tempos de faculdade, em 2010 que comecei a juntar-me de forma pontual aos urban sketchers de Lisboa, sempre de forma tímida e muito pouco participativa. Mas dessa época o que me marcou mesmo foram os professores Nuno Freire e Sara Antunes e os meus colegas Filipe Oliveira e Luis Martins, dois monstros do desenho. No entanto, a minha referência sempre foi o Eduardo Salavisa, o eterno Desenhador do Quotidiano – desenho em caderno – desenho de observação – desenho sintético – caneta e aguarela.

Igreja da Graça, século XVI - Torres Vedras.

Confesso que nunca gostei de muita cor nos desenhos e limitei-me quase sempre ao uso da caneta. O grafite nunca me seduziu. Uma das coisas que mais me atrai no desenho de observação é a “necessidade” de relação entre desenhador/observador e o objecto/espaço que pretendemos desenhar – profundo e eterno jogo de sedução. Ao perceber os privilégios do desenho no processo de investigação, decidi que seria essa a minha principal ferramenta para a elaboração da minha tese de mestrado – O Lugar como simbiose – Centro Histórico de Torres Vedras. Assim foi, o desenho deu-me a conhecer um centro histórico que eu desconhecia, um centro histórico para lá das praças e dos edifícios. Desenhar obriga-nos a perceber como se compõem e estruturam os elementos que nos rodeiam. Além disso, o jogo de sedução ultrapassa a relação observador-objeto, criando um triângulo amoroso bastante interessante – observador-objetos-público.







Em 2014, iniciei o estágio em regime de part-time, como arquiteto, na Câmara Municipal de Torres Vedras, na Área de Planeamento, com o objectivo de apresentar um plano de revitalização/dinamização do centro Histórico da cidade, procurando a simbiose ente a arte, cultura e património. Assim nasce o evento Cultural “Arte ao Centro”, que contou com o apoio do artista plástico José Ferreira, tendo saído do papel para as ruas do centro histórico da cidade, representadas por sketchers e pintores. Este evento teve como parceiros a autarquia e a Cooperativa de Comunicação e Cultura. Ainda no âmbito do Arte ao Centro, assume a curadoria da exposição @rte ao Centro (CCC), em parceria com Ana Avelino, Catarina Sobreiro e Inês Mourão. Foi ainda curador da exposição do artista plástico brasileiro Lauro Monteiro no seu “Acalanto para Caymmi”, que esteve patente na COISA. 



Em Maio de 2014 sou convidado pela Cooperativa de Comunicação e Cultura a criar um grupo de desenho integrado nesta associação: CCC Sketchcrawl Torres Vedras. Desde então, tenho organizado vários encontros de desenho, privilegiando o espaço público e a interacção entre as diferentes idades e classes sociais.

Julho 2015 - Paraty (Brasil) - Mercado do Pescador

Entre 27 de Agosto e 7 de Setembro de 2014 estive em Paraty – RJ – Brasil, onde participei no 5º Simpósio Internacional de Urban Sketching e no 6º Encontro Internacional de Aquarelistas. Participei ainda na IV Semana Fluminense do Património, com duas comunicações: Identidade: Centro Histórico de Torres Vedras e Arte ao Centro – o desenho e os intercâmbios culturais. De 26/08 a 6/09, participei numa exposição conjunta com Lauro Monteiro, no IPHAN: Torres Vedras e Paraty: 2 linhas, 1 caminho.


Julho 2015 - Paraty (Brasil) - Mercado do Pescador

Para mim o desenho é tudo e nada ao mesmo tempo. Não tenho quaisquer pretensões/preocupações artísticas, faço-o de forma descontraída e descomprometida. Apesar de me rever no desenho a “preto e branco”, gosto de experimentar técnicas diferentes, de partilhar experiências com outros desenhadores, novas abordagens, novos olhares sob o mundo. O desenho é para mim uma ferramenta de trabalho, um momento de descontracção, uma forma de registar o mundo que me rodeia. Desenhar tem-me tornado mais rico – mais observador, mais sensível à relação homem/espaço. Por ultimo, mas não menos importante, tem-me oferecido muitos e bons amigos, tanto a nível nacional, como a nível internacional. Todo o projeto Arte ao Centro, que coordeno, tem privilegiado as relações com o Brasil e Espanha, com intercâmbios culturais, tendo o desenho como plataforma de articulação. A relação deste projeto com o Brasil é muito forte e espera-se que venha a crescer cada vez mais. Por isso quando me convidaram para correspondente oficial do Brasil, não escondi a minha enorme satisfação por pertencer a um grupo tão rico ao nível cultural e social. Por isso, a todos o meu obrigado. Podem contar com o meu trabalho e emprenho na valorização do vosso grupo.


Agosto 2014 - Paraty (Brasil)

Agosto 2014 - Paraty (Brasil)

10.8.15

Para que serve um diário gráfico? Parte 1


Numa palestra do Eduardo Salavisa (especialista e autor de vários livros sobre o tema) se discutiu sobre as funções de um diário gráfico, entre elas a provocadora afirmação de que não serviria para "nada".  Fazer diários gráficos é um experiência recente, comecei a apenas duas viagens.  A primeira em 2013 (Londres, Budapeste, Viena e Praga) e mais recentemente para Portugal (Lisboa e Torres Vedras).

Estimulado por esta provocação, decidi pensar sobre as funções possíveis de um diário gráfico e para isto usarei de maneira bastante informal as tradicionais categorias da função da linguagem para estruturar meus devaneios. Já aviso aos acadêmicos mais rigorosos que  isto é uma tentativa pública e informal de explicar algo que ainda estou tentando entender e teria, portanto, apenas uma função exploratória.
Abaixo você lerá a primeira parte do texto, se você quiser ler a segunda parte visite Parte 2.

Serve para documentar

Vamos começar pelo mais fácil de explicar e entender: um diário gráfico teria uma função documental com caráter denotativo, ou seja, buscaríamos registrar da maneira mais crível possível aquilo que vimos e experimentamos. Sua função adquire um tom de reportagem gráfica com o desejo de facilitar uma interpretação do que foi desenhado.  Registramos respostas para algumas perguntas como:
  • Quais lugares eu visitei?
  • Quem eu conheci?
  • O que comi e bebi?
Onde eu estive? Mapas, adesivos, setas tentam comunicar onde ficamos em Portugal, ou seja, no Bairro da Alfama.

        

Com quem eu estive? Desenhando durante o almoço com os novos colegas portugueses e espanhóis.  Os adesivos respondem as peguntas: o que bebemos e onde comemos. Desenhos dos rostos dos colegas André Duarte, Carlos e Célia. Comemos deliciosos espetos de polvo e lula.  Bebemos o "vinho da casa" do Restaurante o Gordo.

O que eu vejo quando espero pelo meu avião que me levaria para Portugal? Terminal internacional do Aeroporto Viracopos em Campinas, São Paulo.

      

Quem dormia (e quase babava) durante a viagem de volta a Curitiba? Voo da Gol "Linhas Aéreas Inteligentes".

Serve para se expressar

Quase como uma oposição ao tom documental, surge a função expressiva, a qual foge da "neutralidade" do registro de uma circunstância.  Buscamos um registro gráfico daquilo que estávamos "sentindo" durante o processo de observação (alegria, satisfação, alívio, solidão, saudade, etc).  Na função expressiva ocorreria uma conversa do desenhista com ele mesmo, onde comentários textuais e gráficos adquirem uma dimensão de introspecção, por vezes tão densa que provavelmente o leitor não decifrará uma mensagem coerentemente, somente o autor teria a chave para compreendê-la. A busca para algumas achar respostas para as perguntas abaixo motiva o desenho.
  • O que eu estou sentido neste momento?
  • Eu estou gostando deste lugar?
  • Minha linguagem gráfica registra a alegria e emoção que estou sentindo enquanto faço este desenho?


As linhas leves indicam o grande alívio de chegar em Lisboa e reencontrar a companheira com seus cabelos ao vento, a vista da ponte é etérea e testemunha os efeitos da bebida levemente entorpecedora. Estávamos no Mirador da Igreja da Graça em Lisboa.



A marcha da passagem dos representantes da fé católica, a música da banda, o cheiro de incenso alimentam uma linguagem gráfica que representaria a emoção e intensa alegria de testemunhar, ao lados de pessoas amigas, este momento da mais tradicional e popular cultura portuguesa. O tema é apenas sugerido e, para o autor, não poderia ser de outra forma visto que a procissão evoluía rapidamente.


 

Serve para fazer poesia

Se levarmos a abordagem expressiva às suas últimas circunstâncias daríamos uma função plenamente poética para nossos registros. As páginas do diário gráfico se transformariam numa busca de especulações, experimentos e da intensificação da força expressiva dos materiais empregados, não importando necessariamente o que estaria diante do observador.

As "respostas" advindas desta poética aventuram-se nos limites expressivos da linguagem e material gráfico empregado. Assim, o diário se torna um repositório de experimentações poéticas onde o objetivo é gerar surpresas gráficas e prazer estético para o desenhista bem como para o leitor. Neste caso aquilo que se vê é apenas uma desculpa para gerar um desenho bonito e estimulante visualmente. Algumas perguntas criativas:
  • Como eu faço para aplicar harmonias de cores monocromáticas?
  • Vou usar várias texturas de papel, será que o resultado ficará bonito?
  • Comprei este material de desenho, quais linhas e texturas poderei gerar com ele?

Na composição acima quis promover uma exaltação gráfica ao potencial poético das colagens, técnica que alias adoro praticar.  O objetivo era mostrar como catar, compor e colar imagens encontradas numa Praça de Torres Vedras e como elas poderiam se tornar um tema em si, não importando necessariamente o que ali estava sendo registrado, ou seja, pura poesia. 
Claro que a verve poética também foi alimentada pelo ponto de partida documental, neste caso o professor Lauro Monteiro aparece na imagem.


Um poesia gráfica onde cacos de papel brotam do pincel da colega portuguesa Teresa Ogando, sentada no chão de uma Praça de Torres Vedras.


As funções apelativa e metalinguística vou deixar para uma próxima postagem.
Neste ínterim, aguardo reações dos leitores.







       

18.6.15

13º Encontro de Urban Sketchers Rio + SketchCrawl Coletivo Portugal+Brasil+Espanha

13º Encontro de Urban Sketchers Rio + SketchCrawl Coletivo Portugal+Brasil+Espanha

"Todas as linhas vão dar a Torres: Portugal, Brasil e Espanha"


Domingo de Sol, tive a maravilhosa companhia de minhã mãe e minha irmã para ir desenhar na Escadaria Selarón, que liga a Lapa à Santa Teresa. Lá uma grande quantidade de turistas já se encontravam presentes, tirando muitas fotos, selfies e procurando entre os milhares de azulejos os de suas terras natais. A surpresa, o encantamento e a felicidade eram contagiantes. Encontrei um excelente degrau na escadaria, que me daria ampla vista e uma "mesa" de apoio. Trabalhei com o nanquim e descobri que a perspectiva era bem mais complexa do que imaginei. Primeiramente porque tinha dezenas de pessoas andando, parando, sentando na escada, tirando fotos, me obrigando frequentemente a trocar de local de desenho. Isso fazia com que eu perdesse o "fio" do desenho e perdesse a noção do todo e dos pontos referênciais. Aconteceu tanto no nanquim quanto na aquarela. Segundo ponto é que a escadaria tem diversos trechos e patamares, que não são regulares, o que só descobri enquanto desenhava. Conforme o desenho tomava cor alguns passantes notaram minha presença e começou a surgir uma pequena multidão em volta. Ouvi alguns "This is very good", "You are very talented", "Beautiful", "Trés Biens" e muitos brasileiros, um inclusive que sugeriu que eu colocasse o desenho a venda por R$ 500. Respondi que era muito apegada aos originais e que de qualquer forma tinha outro desenho no verso. No espaço que sobrou resolvi fazer uma singela homenagem ao grande artista e ilustre carioca de coração, o chileno Selarón. Sua belíssima obra deixou um legado colorido de amor em nossos corações. Que ela pra sempre ilumine sorrisos no rosto de quem a veja e que ela sempre surpreenda quem a tenta desvendar.

Escadaria Selarón. Nanquim e Aquarela




Após o almoço tomamos coragem e subimos a escadaria e ladeira de Santa Teresa. Chegamos ao Parque das Ruínas (um pouco cansadas, confesso) e apreciamos uma interessante exposição e um delicioso café. Após breve descanso subimos a escadaria (mais uma! dá-lhe degrau!) e nos deslumbramos com o que considero minha vista preferida do Rio de Janeiro. Começando do centro da cidade é possível ver toda a entrada da Baía de Guanabara até o Pão de Açúcar. Niterói e a Serra do Mar emolduram esse cenário de sonhos. Após fazer um pequeno guia turístico e arquitetônico da cidade para minha mãe e irmã, apontando os prédios e locais principais da ciadde, me inspirei para fazer um panorama. Sou apaixonada pelo centro da cidade, então acabei automaticamente detalhando mais aquele ponto. Depois o cansaço e a demora foi batendo e começei a ser mais prática, definindo o skyline e pontos mais relevantes. O vento e a fineza da folha atrapalharam um pouco mais fiquei muito satisfeita com o resultado. Pena que não tenho conhecimentos suficientes de Photoshop para unir perfeitamente as folhas, mas espero um dia conseguir imprimir um painel com esse croquis para poder lembrar, quando quiser, essa vista fantástica. 

 Panorama Rio de Janeiro. Nanquim. Total de 6 folhas de caderno 80g