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2.5.18

27º Encontro USK Fortaleza - Igreja do Carmo


O 27º Encontro Urban Sketchers Fortaleza aconteceu no sábado, 21/4/18, feriado de Tiradentes. Contamos com a presença de 23 sketchers que, através de variadas técnicas e olhares, registraram a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. A igreja está localizada na Praça do Carmo e sua fachada principal olha para a Av. Duque de Caxias um dos principais acessos ao centro histórico de nossa cidade. O início de sua construção ocorreu em 1850, embora sua atual denominação só tenha sido assumida em 1892 e sua inauguração oficial (com a maior parte das características arquitetônicas atuais) só tenha acontecido em 1906. 

Foi mais um dia de muito sol e de intensa produção gráfica. Sobre isso, deixarei aqui algumas colocações para nossa reflexão. Tenho observado já há algum tempo como o nome escolhido para o título dos nossos encontros acaba influenciando a temática dos desenhos. Ficou claro que a atenção dos participantes, inclusive a minha, foi direcionada somente para a igreja embora o perímetro da Praça do Carmo, por exemplo, também tivesse vários temas interessantes. Outro ponto que considero curioso foi a forte atração que a torre da igreja provocou nos desenhistas. Ela está presente em 18 dos 21 desenhos mostrados aqui. Os ângulos e composições escolhidos também sempre me chamam a atenção. Eles acabam sendo determinados por variáveis nem sempre relacionadas com o desenho. Uma delas é, por exemplo, a possibilidade de desenhar sentado e na sombra :). 

É claro que nada disso diminui o valor dos registros. Tenho certeza que todos os sketchers no Brasil e no mundo passam por situações semelhantes, mas fica a dica de olharmos mais atentamente para outras possibilidades além do tema que virou título do encontro :). Apesar do evidente foco na igreja, destaco mais uma vez a variedade de processos e visões que culminaram em belíssimos sketches. Foi, como de costume, mais um grande encontro!

Valeu e até o próximo, dia 26/5/2018 no Centro Administrativo Do Estado Do Ceara - Cambeba.














9.4.18

26º Encontro USK Fortaleza - Edifício Granville



Texto: Fabrício Porto

Fortaleza é plana. É a observação irrecorrível que qualquer visitante vindo de cidades escarpadas faz ao transitar pela capital cearense. Erguida sobre um tabuleiro litorâneo e com elevação média de aproximadamente 20m acima do nível do mar, Fortaleza não é uma cidade em que um desenhista, ao representá-la, sobreponha camadas e camadas de horizontes, como se faria em um desenho do Rio de Janeiro ou de Lisboa. Temos o construído diante de nossos olhos e o céu logo atrás. Sensível exceção temos na Volta da Jurema, espaço histórico do município à beira-mar e palco do 26º encontro do Urban Sketchers Fortaleza, ocorrido em março.

Rabiscaram, os sketchers fortalezenses, numa manhã ensolarada - algo não tão recorrente nos meses iniciais do ano - a paisagem atual da Volta. O frescor da maré vizinha não foi páreo para o abrasador sol da manhã alencarina, transcorrendo tudo sob o vibrante calor habitual. De onde se reuniram os desenhistas, vê-se, talvez, o mais expressivo aclive da cidade. A subida da Volta é daquelas em que o motorista passa a primeira marcha para que o carro vença a gravidade. Pela calçada, atletas e coopistas sobem e descem a curta e íngreme ladeira para potencializar seus exercícios. Há também o antigo morro do Granville, ora convertido em Jardim Japonês, uma quadra pública de transição entre o nível do mar e o platô urbano.

No passado, o morro do Granville foi palco democrático de encontro da juventude local e espaço vistoso do circuito litorâneo, um morrete verde subindo rumo a uma construção de geometria audaz, a lhe coroar no topo. A geometria é o emblemático edifício Granville, projeto do arquiteto carioca - e radicado no Recife - Acácio Gil Borsoi (1924 - 2009), que assina muitas das arquiteturas visualmente reconhecíveis da cidade. Prova disto esteve diante dos desenhistas na ocasião: um majestoso bloco de concreto com entalhes precisos e sacadas dançantes que estão em praticamente todos os desenhos do encontro por dominar a paisagem.

A crítica à implantação de um jardim japonês - projeto encabeçado pela Prefeitura de Fortaleza - no morro do Granville, abandonado com o tempo como ponto de encontro, é inevitável, tanto pelo tema quanto pelo resultado. Jardins japoneses pelo mundo tem amplidão e contexto. Em Fortaleza, é de dimensões bastante reduzidas, demasiado cenográfico e não guarda relação com qualquer corrente migratória ou comunidade nipônica, inexistente na cidade. Um saudoso sketcher na casa dos quarenta restituiu, no desenho, a forma antiga do morro tal como ainda permanece em suas reminiscências juvenis. Os mais jovens foram fiéis ao que está posto, talvez sentindo um estranho aroma de estrangeirismo cênico deslocado no espaço.

O resto da história desta manhã de encontro e troca de experiências artísticas e percepções urbanas e culturais está narrado nos registros fotográficos que seguem. O USk Fortaleza segue firme com sua proposta de ocupar a cidade mensalmente com um grupo crescente e ativo, curioso por descobrir e representar este palco de belezas naturais em conflito com contradições urbanas, pouquinho abaixo do equador e debruçado para o atlântico.
















7.3.18

25º Encontro USK Fortaleza - Praça do Ferreira

Texto: Fabrício Porto e Marcos Bandeira

No último sábado de fevereiro, dia 24, realizamos o nosso 25º Encontro USK Fortaleza. O local escolhido foi a icônica Praça do Ferreira, localizada no centro histórico de nossa capital. Tivemos a participação de 14 sketchers, que tentaram, dentro do possível, registrar edifícios, espaços urbanos e personagens do local. O relógio da hora, marco simbólico do espaço, aparece em vários registros por sua centralidade e protagonismo, sendo um evidente elemento vertical em um tabuleiro de pequenas árvores, bancos de praça, banquinhas de jornal e elementos do tipo. De igual importância, o Cine São Luís, defronte ao relógio da hora e testemunha de uma época de ouro da cidade, também foi parar nos cadernos e folhas dos sketchers, com toda sua pompa, seu mármore, seus lustres e sua atmosfera classuda. Registramos neste dia alguns pergaminhos de nossa história construída.

A prática co-relata ao sketch urbano, a de sentir a cidade e sua atmosfera, deu-se também de forma clara: dentre vários problemas de ordem urbanística e social percebíveis a olho nu, foi inevitável sentir o abandono desta praça no que diz respeito às políticas de segurança pública. Ocorreram situações de constrangimento e ameaça de agressão sem que houvesse nas imediações nenhum policiamento visível para quaisquer providências. Mas o grande vigia da paz é um povo que ocupa seus espaços públicos de forma tolerante, democrática e vigorosa. O que conferiu real sensação de segurança foi, em dado momento, uma batalha de MC´s que ocuparam provisoriamente a praça, com suas aparelhagens de som e sua irreverente estética verbal e paramentária. Na prática, é esta ocupação legítima de manifestações artísticas, comerciais e culturais o que confere segurança de fato, de uma forma mais civilizada que presença - e neste caso, ausência - de policiamento.

No momento da batalha dos Mc´s, alguns sketchers saíram do foyer do Cine São Luís para novamente rabiscar a praça, inclusive os cantores e seu público. Porém, o cair da tarde foi revelando aos poucos outro grave problema social que tem a praça como palco: a moradia na rua. Com o fechamento dos comércios e o paulatino esvaziamento do espaço, moradores de rua foram se achegando àquilo que ainda podem chamar de casa, as marquises das lojas, os bancos da praça e as árvores. Algumas obviedades, que nos passam batidas e que são meros conceitos vagos no discurso político, afloram em atividades como o sketch urbano, que tem como natureza a presença e a observação: primeiro, que deve o estado estimular vigorosamente a ocupação dos espaços públicos com arte, feiras, exposições e toda sorte de manifestações culturais próprias ou interessantes àquela sociedade; e segundo, que deve o poder público se penitenciar de sua omissão nas políticas de assistência social através de um programa que restitua dignidade à populações que tem a rua como lugar único de moradia.

É isso, caros sketchers. Vejam os desenhos e fotos do evento.












29.1.18

24º Encontro USK Fortaleza - Praia de Iracema


Texto do sketcher Fabrício Porto

Sketch na chuva.
Diz um jovem poeta de nossa terra que 'lágrima de índio, quando cai, arrasa mondubins, alaga aguanambis... cariris todos debaixo d´agua, tabajaras... quanta mágoa em tua taba'. Trata-se de uma bela canção que conecta o inesperado drama que sempre é a chuva em Fortaleza e nossa porção cultural indígena, que nomeia nossas ruas e bairros. Acostumados ao religioso sol que nos invade a pele já às seis da manhã, recebemos as chuvas de começo de ano como uma desorganizadora da vida feita em torno da forte e constante luz equatorial que incide em nossos quatro graus de latitude sul.
Assim, sob o chover e no bairro com nome de índia, é que se desenrolou neste sábado, 27 de janeiro, o 24º encontro Urbansketchers Fortaleza. Uma rara manhã de chuva branda e constante, com temperatura na casa dos polares 22°C (é isso mesmo, caros sketchers do sul), que obrigou os desenhistas à abrigarem-se sob pequenas palmeiras, barracas de vender coco e beirais de antigas casas da Praia de Iracema, local escolhido para o encontro e espaço afetivo por excelência da capital cearense.
Para um dia chuvoso, é possível dizer que houve êxito absoluto ao se levar mais de uma dezena de cearenses para a rua numa manhã de sábado para desenhar. E desenhamos, como sempre, à moda alencarina, rindo-se de nossa desgraciosa situação, amontoados e espremidos sob qualquer abrigo possível. Não raro, trabalhadores da praia, a quem a chuva não espanta, paravam para examinar aqueles grupos que se aninhavam sob as escassas cobertas e desenhavam em conluio. 'Muita vontade de desenhar... nessa chuva?!' - era o pensamento por trás das expressões de surpresa e graça dos passantes.
Desenhamos, no entanto. Alguns inserindo sombras que ali não estavam e azuis celestes que não compareceram. Outros sendo fieis aos tons pasteis que o tempo nublado impõe. O casario dos anos cinquenta, de fachadas coloridas, ficou menos vivo. O antigo edifício São Pedro, testemunha de uma época de ouro do bairro e hoje depauperado pelo abandono, ganhou aspecto ainda mais obscuro sob o intruso cinza do nublado. Poucas figuras humanas passavam na calçada para nos servir de modelo e nos presentear com escala e humanização.
São os registros de uma atípica manhã cinza em que tivemos momentaneamente amputados nosso sol e nossa vibrante vida urbana. Vendo os desenhos dos colegas, penso que esta circunstância está sutilmente expressa nos resultados. Naquele dia, registramos a transformação da paisagem pela chuva, em seus diversos aspectos. Registramos o que ocorre quando cai lágrima de índio.

Fabricio Porto, 29 de janeiro de 2018.
*A música citada no começo do texto é Lágrima de Índio, do cantor e compositor cearense Daniel Medina

Desenho: Amando Costa

Desenho: Amando Costa

Desenho: Maria Luisa Maia

Desenho: Rebeca Alencar

Desenho: Mateus Morais

Desenho: Fabrício Porto

Desenho: Fabrício Porto

Desenho: Jairo Diniz

Desenho: Domingos Linheiro

Desenho: Marcos Bandeira

Desenho: Alesson Matos