18.5.18

Joinville, uma odisseia no espaço (do caderno) - Parte I

Meu amigo André Lissonger tem reclamado que não tenho mais escrito textos quando publico meus desenhos, e assim perdi essa relação desenho-história que ele gostava nas minhas publicações. Realmente não tenho mais praticado esse antigo costume, que no início das minhas aventuras de sketcher, estavam muito presentes. Talvez seja porque o ato de desenhar se tornou mais duro, pesado, perdeu aquela leveza de fazer um desenho qualquer, afinal é só um sketch, não é mesmo? O resultado do desenho ficou mais importante que o gesto, a experiência, a diversão. Será que mais alguém sente isso? Quando estou mais atento ao resultado, me preocupando com coisas complexas do desenho e da pintura, o mundo à minha volta vira formas, linhas e cores. Fico alheio às deliciosas interferências externas, e o cronista (puto da vida) vai-se embora! Afinal esse desenhista não conversa mais com ele.

Um outro amigo, Fabiano Vianna, conta que as musas das artes têm ciúmes entre elas, que não podemos agradar a uma sem comprar briga com outra. Será mesmo? Quem já apreciou as inspiradoras postagens da Karina Kuschnir não irá concordar com isso. É dos desenhos que ela tira as melhores histórias, ou vice-versa, que no caso dela não importa a ordem, pois tem beleza pra todo lado.

O pessoal deve estar se perguntando, mas e o assunto do título? E Joinville? Pois é, tava dando essa volta toda pra dizer que eu também sinto falta das histórias, pois desenhar na rua é temperar o desenho com cheiro e vozes, com acasos e tropeços, com muitos erros e alguns acertos. E lá (ufa, finalmente) no 1º Encontro de Urban Sketchers Paraná-Santa Catarina foi assim, desenhos + histórias que vou contar agora. Dessa vez não serão as esperadas histórias do cotidiano da cidade atravessando nossos traços, mas as histórias por trás dos desenhos, das minhas tentativas e erros, desse conversê interior entre o sketcher e seu desenho.

Primeiro desenho, uma aquarela num bloco que já tenho a tempos. Foi o "maldito" Simon Taylor que me presenteou, quando estava imbuído de me viciar nesse tal de urban sktcher. E conseguiu! Surpreendentemente o papel que não parece bom para aquarela, funcionou bastante bem. Já tive experiências muito mais difíceis com outros papéis ditos específicos para aguadas. O prédio que "pedia" pra ser desenhado era o que ficou atrás de mim, e eu de costas pra ele. Isso é uma das coisas que mais aprecio nesse movimento, essa liberdade tridimensional do mundo lá de fora. - Desenhe o que lhe agrada! E o que me agradou era esse outro predinho cinzento, art déco, e os toldos coloridos na frente dele. Claro que pintar uma cena com toldos ou tendas vermelhas já remete às aquarelas do Alvaro Castagnet, mas me meti assim mesmo nessa aventura sem chances de sucesso. - Dez reais, dez reais, é o chip da Tim já com carga! Insistia a vendedora ao meu lado enquanto eu lutava para não me afogar no mar de manchas que se misturam da aquarela. Ao final reflito: - a aquarela é minha praia? Não! Mas sempre aprendo um pouco mais quando mergulho nela.

Meio torto, depois de uma hora sentado no chão lidando com as complexidades do desenho anterior, fui dar uma volta e ver o que a Praça Nereu Ramos tinha para oferecer. Claro que me atraí pela troupe máscula e de meia idade que jogava cartas. Um total clube do bolinha cheio de personagens muito interessantes. Escolhi outro suporte, o meu queridinho bloco de papel kraft. No fundo no fundo eu tenho um problema com o amarelado dele, queria que fosse mais sépia, mas ok, eu perdoo essa pequena falha. Faltava meia hora pro fim do encontro da manhã e eu não podia viajar muito na maionese. Então, como solucionar rapidamente uma cena tão complexa que tava pedindo pra ser desenhada? Primeira coisa a se pensar, e sempre repito isso por aí, olho o que não vou desenhar. O desenho é feito dessas duas massas, o que a gente desenha, o e que a gente não desenha. Nesse caso a solução que encontrei foi recortar os corpos dos personagens pela forma das cadeiras de plástico, assim eu insinuava a presença delas sem desenhá-las, poupando tempo e evitando um elemento complexo que podia gerar ruído e tirar a atenção do tema principal, o pessoal do carteado. Mesmo assim foi um desenho longo, tentando capturar as expressões e algumas faces, lidando com gente que vai embora e que muda de lugar. - Olha só o Fulano, ficou bem mais velho! Alguns que viram o desenho caçoavam dos amigos. Fechando a cena acrescentei a árvore e fiquei sentindo falta de algo mais, peguei a poska branca e desenhei a arquitetura dos prédios ao fundo. Isso me ajudou a contextualizar o desenho, dando um cenário pros meus personagens, e mantendo a estética que venho usando em outros desenhos nesse caderno de papel kraft. O tempo se esgotou e no finzinho ficou a dúvida: - jogo uma aquarela no desenho pra fazer a sombra projetada nos personagens ou não? Como não tive, nem tenho resposta até agora, deixei como está.

Por hoje só, dois mergulhos pra molhar os pés e as mãos. Na próxima postagem tem mais desse mar do desenhar. Até lá!

4 comentários:

  1. Eu atualizei minha teoria sobre isso, e agora acredito que ao invés de musas, são entidades (masculinas e femininas). Existem as entidades superiores – da pintura, literatura, escultura, dança etc. E suas filhas, que regem as criações específicas. Por exemplo da pintura: nanquim, grafite, lápis de cor, aquarela... A questão do ciúmes entre elas existe, mas também o que pega é o quanto podemos nos dedicar a cada uma delas. Porque não é só a concentração numa determinada técnica, mas também o agrado à entidade. Temos que alimentar semanalmente seu altar com desenhos, aquarelas, artes bem resolvidas. E elas são exigentes!! Heheh. O que acaba inviabilizando de agradar mais de uma entidade, de vez em quando. Infelizmente.
    Cara, muito bom ler teus relatos bem descritivos sobre os desenhos. Percebi que o cronista estava meio longe do corpo, mas com as orelhas atentas. Enquanto o Raro sketcher agia, ele ouvia os diálogos ao redor. “- Dez reais, dez reais, é o chip da Tim já com carga! “
    Adorei o resultado desta sua imersão no cotidiano de lá. Uma hora eu e Raquel reparamos que você estava quase invisível, em meio aos jogadores de carteado da praça. “Sketcher gonzo” – apelidou a Raka. O resultado deste mergulho está lindamente no desenho, perfeito na captura das ações, vestimentas e expressões. Engraçado que era como se não tivéssemos realmente ali. Eles – tão vidrados em suas cartas, não repararam nos “fantasmas” em volta. Gosto muito desta nossa criação; visão das coxias. Estávamos ao mesmo tempo dentro da caixa central, porém fora da cena principal. E você, com seu dom magistral de sketcher gonzo (e ator nato) se infiltrou no roteiro da cidade.
    A insegurança sobre as técnicas, na sua crônica, me agrada muito. Para mim, os acertos nascem destas dúvidas tortas. Aquela velha história da esteira de desenhos bons e ruins, né. Heheh
    Uma vez li um relato do escritor Herman Melville, de que seu livro Moby Dick era para ele apenas um estudo de um estudo de um estudo. E que ele estava preparando para escrever seu grande livro. (E que curioso – Moby Dick é hoje um dos grandes livros da literatura mundial). Penso que a vida de quem cria alguma coisa é assim. Estamos sempre à espera de “algo que virá”. Mas a tentativa de escrever um livro, é escrever um livro. A tentativa de fazer um sketch, é fazer um sketch. E assim vão surgindo pérolas, no caminho, sem nos darmos conta. Como estes teus dois desenhos do primeiro post-Joinville. Fantásticos.
    A aquarela, para mim, é como uma baleia atroz. Às vezes ela chega mais perto, às vezes fica lá no fundo junto com os dos desenhos esquecidos. E aí nós é que temos mergulhar até ela. Esta Moby Dick não pode ser caçada completamente, porque ela é livre. Então o que fazemos é tentar registrá-la, do jeito que dá, suscetíveis a todo tipo de impressões no barco – vento, ondas, fome, enjoo, prazeres, vislumbres de paisagens. Mas o pior mesmo é quando ela vêm e destrói tudo – arrasa, destruindo desenhos, fazendo uma zona com os pincéis. Heheheh Você sabe muito bem como é isso.
    Mas a gente sempre se reconstrói e continua. O barco (com remendos) aporta em outros portos – Joinville, Itaiópolis, Salvador. Depois retorna à Curitiba, etc. E a gente continua a saga de desenhar, desenhar. Sempre tentando agradar as entidades, sendo fiel à lembrança dessa baleia abissal (da qual só temos vislumbres), dando uma de sketcher gonzo de vez em quando, nas coxias do roteiro terrestre, no ofício do fazer – sketch, sketch, sketch.
    Estudos de estudos de estudos de uma vida que é também um estudo de outros eternos estudos. Heheh

    ResponderExcluir
  2. meninos queridos que não conheço pessoalmente mas é como se conhecesse: que deleite para a alma ver e ler vocês!! Raro, muito obrigada por me marcar lá no fb e, assim, me convidar para vir aqui te ver e te ler. Fabiano: que lindeza de comentário!! Ganhei um Melville há pouco tempo e estava namorando o tempo para lê-lo. Será que tentar ler um livro é ler assim mesmo? Brincadeira à parte, um abraço enorme por tudo isso. ♥♥

    ResponderExcluir
  3. Delícia de texto e de desenhos, Raro! Esse mundo é mesmo mágico quando nos damos tempo de olhar para ele...

    ResponderExcluir
  4. Vocês (todos) me emocionam com este amor descarado ao desenho.

    ResponderExcluir