12.11.21

 

DESENHANDO A CIDADE QUE ACONTECE NO ÔNIBUS: O COBRADOR DE ÔNIBUS
 Por Francisco Leocádio
(English version at the end)


Para Fred Lynch a reportagem é recolher algo a partir da observação, trazendo de volta e se reportando por meio de imagens. Ou seria, como se fôssemos a algum lugar e trouxéssemos de volta e mostrássemos a alguém. Os urban Sketchers  fazem isso a toda a hora. (LYNCH, 2021).[1]


Desenho de uma trocadora, entre 2014 e 2016
A bus collector, sketch done between 2014 and 2016.

Deambular pela cidade e registrar sua vida, seus personagens, é ,  dentre tantas possibilidades das práticas do urban sketching, uma das mais interessantes . Ao mesmo tempo, é um desafio, e no caso dos desenhos que são apresentados aqui, captados no interior dos ônibus da cidade do Rio de Janeiro, a aventura é maior. Dominar o traço e o caderno no sacolejo do coletivo é ter muito desapego à linha reta.  Mas ao mesmo tempo é fascinante poder captar os tipos que entram e saem do coletivo, especulando em silêncio qual seu destino final a partir de suas roupas, seu olhar, com quem estão acompanhadas, e o que carregam nos braços.

           O ônibus do Rio de Janeiro é uma prova de que há sempre diversas cidades numa cidade só. Diferentes personagens que sentam lado a lado e seguem seus itinerários. Nas diversas viagens que eu costumava fazer no trajeto casa x trabalho comecei a desenhar para passar o tempo. Dentre os temas pelos quais me interessava, a figura do trocador passou a ser uma constante.  A escolha acontecia por dois motivos simples mas essenciais para o registro. Primeiro porque era a figura que estava no meu campo de visão, já que sempre procurei sentar mais à frente do veículo. Depois, era o elemento que me acompanhava por mais tempo em toda viagem, claro, além do motorista. Assim, o trocador passou a figurar de modo constante em meus cadernos de desenho.  Essa situação durou alguns anos, até a chegada do metrô no meu trajeto da casa para o trabalho.

A figura do trocador, já há algum tempo, desapareceu de praticamente todos os coletivos cariocas e de diversas outras cidades do país. O surgimento do sistema de bilhete pré-pago fez com que a profissão fosse ficando no passado. Isso me fez lembrar de um depoimento da urban sketcher norte americana Veronica Lawlor, que afirma que muitas vezes desenhamos sem saber se aquele registro pode vir a ser um testemunho histórico (LAWLOR, 2021). Então, é isso, meu testemunho gráfico pode vir a ser de utilidade contar atividades que correm o risco de ficarem esquecidas, sem que tivesse a menor intenção quando desenhei movido por um sentimento ambíguo de interesse na figura do trocador e tédio do trajeto.´



    Na sequência de desenhos escolhidos para esta postagem pode-se ver uns mais tremidos que outros, influenciados pelas condições do trânsito e da habilidade do motorista na direção, Na época ainda não me aventurava em usar a aquarela em qualquer situação, então fazia uso exclusivamente de lápis, lápis de cor e caneta esferográfica. Desenhos monocromáticos e com pouca variação tonal também expressam a urgência da documentação. Sempre buscava começar e terminar no próprio ônibus, antes de chegar no meu ponto de descida.

Outro aspecto que se se verifica neste conjunto de desenhos feitos entre 2014, 2015 e 2016, é que os registros são de momentos de pouco movimento de passageiros, em que os trocadores estão em poses mais relaxadas, virados de lado para sua mesa de e gavetas de troco, alguns até mesmo entediados. Aliás, como mencionei acima, eu também estava entediado. Mas como começava por esses anos a perder um pouco a vergonha de sacar meu caderno desenho em qualquer situação, eu conseguia desenhando a me ocupar enquanto não chegava ao meu destino, o trabalho. Enfim, estes desenhos são a impressão não apenas das folclóricas figuras dos trocadores e trocadoras mas também de um momento da minha vida. Momento esse em que longos deslocamentos na cidade faziam parte da rotina. Confesso que não tenho saudades, prefiro que sejam apenas testemunhos históricos.



 SKETCHING THE CITY THAT HAPPENS ON THE BUS: THE BUS COLLECTORBRAZILIAN BUS COLLECTOR,




To wander through the city and register its life, its characters, is, among so many possibilities of urban sketching practices, one of the most interesting. At the same time, it is a challenge, and in the case of the drawings presented here, captured inside the buses in the city of Rio de Janeiro, the adventure is greater. To master the line and the notebook in the sway of the bus is to have a lot of detachment from the straight line.  But at the same time it is fascinating to be able to capture the guys that get on and off the bus, silently speculating about their final destination based on their clothes, the way they look, who they are with, and what they are carrying in their arms.

cadê o trocador?




The Rio de Janeiro bus is proof that there are always several cities in one city. Different characters that sit side by side and follow their itineraries. During the several trips I used to make from home to work, I started to draw in order to pass the time. Among the themes I was interested in, the figure of the exchanger (or bus collector) became a constant.  The choice happened for two simple but essential reasons. First, because it was the figure that was in my field of vision, since I always tried to sit in the front of the vehicle. Second, it was the element that accompanied me for the longest time during every trip, of course, besides the driver. Thus, the exchanger started to figure constantly in my sketchbooks.  This situation lasted a few years, until the arrival of the subway on my commute to work.

For some time now, the figure of the exchanger/ bus collector has disappeared from practically all public buses in Rio de Janeiro and from many other cities in the country. The emergence of the prepaid ticket system made the profession a thing of the past. This reminded me of a statement by the North American urban sketcher Veronica Lawlor, who says that many times we draw without knowing if that record can become a historical testimony (LAWLOR, 2021). So, that's it, my graphic testimony may come in handy to tell activities that run the risk of being forgotten, without having the slightest intention when I drew moved by an ambiguous feeling of interest in the figure of the exchanger/bus collector and boredom of the commute.

In the sequence of drawings chosen for this post you can see some more shaky than others, influenced by traffic conditions and the driver's driving skills. Monochromatic drawings with little tonal variation also express the urgency of the documentation. I always tried to start and finish on the bus itself, before arriving at my drop-off point.

Another aspect that comes across in this set of drawings made between 2014, 2015 and 2016, is that the records are of moments of little passenger movement, in which the bus collectors are in more relaxed poses, facing sideways to their change desk and drawers, some even bored. In fact, as I mentioned above, I was bored too. But as I was beginning by these years to lose a bit of shame in pulling out my sketchbook in any situation, I managed by drawing to occupy myself while not getting to my destination, work. Anyway, these drawings are the impression not only of the folkloric figures of the men and women bus collectors, but also of a moment in my life. A time when long commutes in the city were part of the routine. I confess that I don't miss them, I prefer them to be only historical testimonies.

 

Referências

Vídeo

LAWLOR, Veronica. USkTalks S2E2 - What is Reportage?. Palestra on-line proferida no canal Urban Sketchers no Youtube em 24 de jan. de 2021. Em: https://www.youtube.com/watch?v=wwwm2rAegSU. Acesso em 15 ago 2021.

 

LYNCH, Fred.. USkTalks S2E2 - What is Reportage?. Palestra on-line proferida no canal Urban Sketchers no Youtube em 24 de jan. de 2021. Em: https://www.youtube.com/watch?v=wwwm2rAegSU. Acesso em 15 ago 2021.






[1] Em tradução livre para:

For Fred Lynch[1]  reportage is collecting something from observation, bringing it back and explaining with pictures. Or even is going to somewhere, bringing it back and showing it to someone. Urban sketchers do it all the time. (LYNCH, 2021).

Fred Lynch é professor de Ilustração na (RISD) Rhode Island School of Design em Providence, Rhode Island. Foi durante muito tempo professor e chefe de departamento no Montserrat College of Art, e continua a ensinar para o seu Programa de Estudos de Verão em Itália. Fonte: Disponível em : https://www.fredlynch.com/contact. Acessado em 15 de agosto de 2021.

 

 

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