12.11.21

 

DESENHANDO A CIDADE QUE ACONTECE NO ÔNIBUS: O COBRADOR DE ÔNIBUS
 Por Francisco Leocádio
(English version at the end)


Para Fred Lynch a reportagem é recolher algo a partir da observação, trazendo de volta e se reportando por meio de imagens. Ou seria, como se fôssemos a algum lugar e trouxéssemos de volta e mostrássemos a alguém. Os urban Sketchers  fazem isso a toda a hora. (LYNCH, 2021).[1]


Desenho de uma trocadora, entre 2014 e 2016
A bus collector, sketch done between 2014 and 2016.

Deambular pela cidade e registrar sua vida, seus personagens, é ,  dentre tantas possibilidades das práticas do urban sketching, uma das mais interessantes . Ao mesmo tempo, é um desafio, e no caso dos desenhos que são apresentados aqui, captados no interior dos ônibus da cidade do Rio de Janeiro, a aventura é maior. Dominar o traço e o caderno no sacolejo do coletivo é ter muito desapego à linha reta.  Mas ao mesmo tempo é fascinante poder captar os tipos que entram e saem do coletivo, especulando em silêncio qual seu destino final a partir de suas roupas, seu olhar, com quem estão acompanhadas, e o que carregam nos braços.

           O ônibus do Rio de Janeiro é uma prova de que há sempre diversas cidades numa cidade só. Diferentes personagens que sentam lado a lado e seguem seus itinerários. Nas diversas viagens que eu costumava fazer no trajeto casa x trabalho comecei a desenhar para passar o tempo. Dentre os temas pelos quais me interessava, a figura do trocador passou a ser uma constante.  A escolha acontecia por dois motivos simples mas essenciais para o registro. Primeiro porque era a figura que estava no meu campo de visão, já que sempre procurei sentar mais à frente do veículo. Depois, era o elemento que me acompanhava por mais tempo em toda viagem, claro, além do motorista. Assim, o trocador passou a figurar de modo constante em meus cadernos de desenho.  Essa situação durou alguns anos, até a chegada do metrô no meu trajeto da casa para o trabalho.

A figura do trocador, já há algum tempo, desapareceu de praticamente todos os coletivos cariocas e de diversas outras cidades do país. O surgimento do sistema de bilhete pré-pago fez com que a profissão fosse ficando no passado. Isso me fez lembrar de um depoimento da urban sketcher norte americana Veronica Lawlor, que afirma que muitas vezes desenhamos sem saber se aquele registro pode vir a ser um testemunho histórico (LAWLOR, 2021). Então, é isso, meu testemunho gráfico pode vir a ser de utilidade contar atividades que correm o risco de ficarem esquecidas, sem que tivesse a menor intenção quando desenhei movido por um sentimento ambíguo de interesse na figura do trocador e tédio do trajeto.´



    Na sequência de desenhos escolhidos para esta postagem pode-se ver uns mais tremidos que outros, influenciados pelas condições do trânsito e da habilidade do motorista na direção, Na época ainda não me aventurava em usar a aquarela em qualquer situação, então fazia uso exclusivamente de lápis, lápis de cor e caneta esferográfica. Desenhos monocromáticos e com pouca variação tonal também expressam a urgência da documentação. Sempre buscava começar e terminar no próprio ônibus, antes de chegar no meu ponto de descida.

Outro aspecto que se se verifica neste conjunto de desenhos feitos entre 2014, 2015 e 2016, é que os registros são de momentos de pouco movimento de passageiros, em que os trocadores estão em poses mais relaxadas, virados de lado para sua mesa de e gavetas de troco, alguns até mesmo entediados. Aliás, como mencionei acima, eu também estava entediado. Mas como começava por esses anos a perder um pouco a vergonha de sacar meu caderno desenho em qualquer situação, eu conseguia desenhando a me ocupar enquanto não chegava ao meu destino, o trabalho. Enfim, estes desenhos são a impressão não apenas das folclóricas figuras dos trocadores e trocadoras mas também de um momento da minha vida. Momento esse em que longos deslocamentos na cidade faziam parte da rotina. Confesso que não tenho saudades, prefiro que sejam apenas testemunhos históricos.



 SKETCHING THE CITY THAT HAPPENS ON THE BUS: THE BUS COLLECTORBRAZILIAN BUS COLLECTOR,




To wander through the city and register its life, its characters, is, among so many possibilities of urban sketching practices, one of the most interesting. At the same time, it is a challenge, and in the case of the drawings presented here, captured inside the buses in the city of Rio de Janeiro, the adventure is greater. To master the line and the notebook in the sway of the bus is to have a lot of detachment from the straight line.  But at the same time it is fascinating to be able to capture the guys that get on and off the bus, silently speculating about their final destination based on their clothes, the way they look, who they are with, and what they are carrying in their arms.

cadê o trocador?




The Rio de Janeiro bus is proof that there are always several cities in one city. Different characters that sit side by side and follow their itineraries. During the several trips I used to make from home to work, I started to draw in order to pass the time. Among the themes I was interested in, the figure of the exchanger (or bus collector) became a constant.  The choice happened for two simple but essential reasons. First, because it was the figure that was in my field of vision, since I always tried to sit in the front of the vehicle. Second, it was the element that accompanied me for the longest time during every trip, of course, besides the driver. Thus, the exchanger started to figure constantly in my sketchbooks.  This situation lasted a few years, until the arrival of the subway on my commute to work.

For some time now, the figure of the exchanger/ bus collector has disappeared from practically all public buses in Rio de Janeiro and from many other cities in the country. The emergence of the prepaid ticket system made the profession a thing of the past. This reminded me of a statement by the North American urban sketcher Veronica Lawlor, who says that many times we draw without knowing if that record can become a historical testimony (LAWLOR, 2021). So, that's it, my graphic testimony may come in handy to tell activities that run the risk of being forgotten, without having the slightest intention when I drew moved by an ambiguous feeling of interest in the figure of the exchanger/bus collector and boredom of the commute.

In the sequence of drawings chosen for this post you can see some more shaky than others, influenced by traffic conditions and the driver's driving skills. Monochromatic drawings with little tonal variation also express the urgency of the documentation. I always tried to start and finish on the bus itself, before arriving at my drop-off point.

Another aspect that comes across in this set of drawings made between 2014, 2015 and 2016, is that the records are of moments of little passenger movement, in which the bus collectors are in more relaxed poses, facing sideways to their change desk and drawers, some even bored. In fact, as I mentioned above, I was bored too. But as I was beginning by these years to lose a bit of shame in pulling out my sketchbook in any situation, I managed by drawing to occupy myself while not getting to my destination, work. Anyway, these drawings are the impression not only of the folkloric figures of the men and women bus collectors, but also of a moment in my life. A time when long commutes in the city were part of the routine. I confess that I don't miss them, I prefer them to be only historical testimonies.

 

Referências

Vídeo

LAWLOR, Veronica. USkTalks S2E2 - What is Reportage?. Palestra on-line proferida no canal Urban Sketchers no Youtube em 24 de jan. de 2021. Em: https://www.youtube.com/watch?v=wwwm2rAegSU. Acesso em 15 ago 2021.

 

LYNCH, Fred.. USkTalks S2E2 - What is Reportage?. Palestra on-line proferida no canal Urban Sketchers no Youtube em 24 de jan. de 2021. Em: https://www.youtube.com/watch?v=wwwm2rAegSU. Acesso em 15 ago 2021.






[1] Em tradução livre para:

For Fred Lynch[1]  reportage is collecting something from observation, bringing it back and explaining with pictures. Or even is going to somewhere, bringing it back and showing it to someone. Urban sketchers do it all the time. (LYNCH, 2021).

Fred Lynch é professor de Ilustração na (RISD) Rhode Island School of Design em Providence, Rhode Island. Foi durante muito tempo professor e chefe de departamento no Montserrat College of Art, e continua a ensinar para o seu Programa de Estudos de Verão em Itália. Fonte: Disponível em : https://www.fredlynch.com/contact. Acessado em 15 de agosto de 2021.

 

 

27.8.21

Repetições e diferenças na ordem pandêmica Por Francisco Leocádio (English version at the end)

“ A repetição não é generalidade.” ( Gilles Deleuze)

    Durante os primeiros meses de confinamento na pandemia, eu tive uma relação de desconfiança com a rua. As regras de isolamento social que foram implementadas mais as notícias que lia ainda pouco claras de como o vírus se propagava me deixaram com receio de pôr os pés para fora de casa. Eu li que em calçadas em ruas de hospitais na China havia sido detectado níveis altos do Covid-19 no ar. Naqueles dias, o uso de máscaras ainda não era uma medida de prevenção a ser seguida por toda a população. Assim, sair à rua, nem que fosse na frente da minha casa, era uma condição perigosa para mim e acredito que para muitas pessoas também. Quando enfim me senti seguro para ir à praça outra vez, eu não levava qualquer material de desenho. Tinha medo de contaminar o papel, o lápis, o pincel.

    Aos poucos, graças às descobertas da Ciência, recomendações da OMS, fui ampliando meus movimentos, e finalmente, fui à praça desenhar, já de máscara e de face shield. Mas isso não quer dizer que estava plenamente à vontade para, enfim, fazer desenhos de locação. Nas primeiras vezes, e foram várias, meus temas estavam vinculados à posição que me encontrava na praça para tomar sol. Afinal de contas, era preciso ativar o corpo para produção de vitamina D para garantir a imunidade. O prazer em desenhar tinha que estar condicionado a essa missão. Então, deveria sentar nos bancos que estivessem expostos à incidência da luz solar, e os assentos disponíveis eram poucos e disputados.
    Com essa limitação de opções para estar na praça, os temas que surgiam à minha frente também eram limitados, aparentemente. Ainda que a Praça São Salvador seja uma pequena joia do Rio de Janeiro, os assuntos que estavam no meu campo de visão, não eram muito diversificados. Assim, surgiu a série de 12 desenhos que seguem abaixo que abrangem os meses de abril de 2020 até julho de 2021 . São variações do belo chafariz presente no centro da praça. Segundo o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, a peça, que possui traços do estilo característico da época do imperador Napoleão III, foi executada na fundição francesa Val d'Osne , e instalada na praça no começo da década de 1960.
    Falar em repetição do tema seria uma redução sem muita reflexão, afinal de contas, nenhum dia é igual ao outro. O chafariz pode até estar no mesmo lugar há décadas, mas quem o desenha não. Cada dia era e é uma conquista, vencer os medos em um período tão difícil. Desenhar e ainda estar atento aos protocolos de segurança, vigiar a máscara na posição correta, evitar tocar em elementos que não fossem o material de desenho, administrar o borrifador de álcool e o pincel com reservatório de água. Vendos os desenhos hoje, em sequência, não parei para pensar em que nível são diferentes cada desenho do chafariz. É claro que são evidentes, os elementos mais óbvios, como o uso de técnicas diferentes, mudanças de enquadramentos, tempo dedicado ao desenho, cada fator listado interfere no resultado. Mas existem outros, ligados à cena urbana, ao contexto, ao uso que os cidadãos fazem do entorno do chafariz. São etnografias que podem estar mais evidentes uns dias, em outros, não figuram no desenho de forma clara. Embora interfiram no meu jeito de apreender o mesmo objeto. Multiplicam-se assim as faces a serem apreciadas de um tema que se mostra não tão limitado, e me comprovando que ainda tenho muito o que desenhar deste chafariz.














Repetitions and differences in the pandemic order
By Francisco Leocádio

 " Repetition is not generality." ( Gilles Deleuze) 

During the first few months of confinement in the pandemic, I had a distrustful relationship with the street. The social isolation rules that were implemented plus the still unclear news I read about how the virus was spreading made me afraid to set foot outside my home. I read that on sidewalks on hospital streets in China high levels of Covid-19 had been detected in the air. In those days wearing masks was not yet a preventive measure to be followed by the entire population. So going outside, even in front of my house, was a dangerous condition for me and I believe for many people as well. When I finally felt safe to go to the square again, I did not take any drawing materials with me. I was afraid of contaminating the paper, the pencil, the brush.

    Little by little, thanks to the discoveries of science, recommendations from the OMS, I expanded my movements, and finally, I went to the square to draw, already wearing a mask and face shield. But this does not mean that I was fully at ease to finally make drawings for hire. The first few times, and there were several, my themes were linked to my position in the square to sunbathe. After all, it was necessary to activate the body to produce vitamin D to guarantee immunity. The pleasure in drawing had to be conditioned to this mission. So, I had to sit on the benches that were exposed to the incidence of sunlight, and the available seats were few and far between. 

    With this limitation of options to be in the square, the themes that appeared in front of me were also limited, apparently. Even though São Salvador Square is a small jewel of Rio de Janeiro, the subjects that were in my field of vision were not very diverse. Thus came the series of 12 drawings below that cover the months of April 2020 through July 2021. They are variations of the beautiful fountain in the center of the square. According to the State Institute of Cultural Heritage, the piece, which has traces of the style characteristic of the Napoleon III era, was executed in the French foundry Val d'Osne, and installed in the square in the early 1960s.

    To speak of a repetition of the theme would be a reduction without much thought; after all, no day is like another. The fountain may even be in the same place for decades, but the designer is not. Every day was and is an achievement, overcoming fears in such a difficult period. Drawing and still being aware of safety protocols, watching the mask in the correct position, avoiding touching elements other than the drawing material, managing the alcohol sprayer and the brush with the water reservoir. Seeing the drawings today, in sequence, I didn't stop to think about how different each drawing of the fountain is. Of course, the most obvious elements, such as the use of different techniques, changes in framing, time spent drawing, each factor listed interferes in the result. But there are others, linked to the urban scene, to the context, to the use that citizens make of the fountain's surroundings. These are ethnographies that may be more evident some days, on other days they do not figure clearly in the drawing.  Although they interfere in my way of apprehending the same object. This multiplies the faces to be appreciated of a theme that is not so limited, and proves to me that I still have a lot to draw of this fountain.

4.4.20

DA VARANDA ..

Vista da varanda de casa .. muita calmaria nesses tempos de isolamento social ..
#lenifujimoto #uskemcasa #watercolour #aquarela #uskbrasil 
#usksãopaulo #urbansketchers #urbansketchers #uskathome 
#fiqueemcasa

31.12.19

AUDITÓRIO DO IBIRAPUERA NO 153º ENCONTRO USK SP

Quase que me esquecendo de postar esse sketch, mas creio, a tempo ..
Do 153º Encontro Urban Sketchers São Paulo que aconteceu no Parque do Ibirapuera..
Dia nublado, de tempo um pouco instável ..o cantinho que escolhi foi numa sobrinha em frente ao Auditório Ibirapuera .. com direito a chuvisco, não de água, mas de insetos .. bem capaz de alguma formiguinha ter tido pequena participação no meu sketch ..
Feliz 2020 a todos!!

25.12.19

VISTA DO MAR PRÓXIMO À PRAIA PRETA EM SÃO SEBASTIÃO

Sketch de almoço que fiz no restaurante As Ilhas, que fica à beira da Rio Santos, próximo à Praia Preta em São Sebastião, entre as conhecidas Sahy e Juquehy ..
Encantada com a vista, não resisti .. aquarelei entre uma garfada e outra, e um cafezinho ..



10.11.19

Cidade Alta Desenhada

Ontem finalizamos as atividades do projeto de extensão CIDADE ALTA DESENHADA, uma ação organizada pelo Urban Sketchers Natal em parceria com o Departamento de Arquitetura da UFRN. Foram ao todo 05 encontros realizados nos meses de abril, junho, agosto, setembro e novembro deste ano, contando com uma média de 30 participantes por encontro.

O projeto de extensão seguiu o formato do seu antecessor, o RIBEIRA DESENHADA, ocorrido no ano de 2018, e constou das seguintes atividades: 1. Encontros USK Natal; 2. Rodas de conversa sobre patrimônio cultural; 3. Atração musical. Farei aqui uma breve síntese dos encontros, ilustrada por boa parte dos meus desenhos produzidos durante as referidas atividades.

O primeiro encontro ocorreu no Instituto Ludovicus - Câmara Cascudo, um importante espaço de documentação não só da figura de Cascudo, mas também da cidade do Natal de uma maneira geral. Fiz um desenho da vista da rua Câmara Cascudo, a partir do terraço do edifício do Instituto. As edificações em geral apresentam um aspecto de falta de conservação.

A roda de conversa contou com a presença de Daliana Cascudo - neta do ilustre -. o historiador Luciano Capistrano, e o professor George Dantas (Departamento de Arquitetura da UFRN), e o assunto em baila não poderia deixar de ser a obre e o legado de Cascudo. Nesse dia, a atração musical ocorreu na praça Padre João Maria, pois estava rolando o tradicional grupo "Choro do Caçuá", capitaneado pelo multi=instrumentista Carlinhos Zens.





O segundo encontro ocorreu dentro da programação do 1 Encontro Norte=Nordeste USK Brasil 2019, no início de junho, nas imediações da praça Padre João Maria. Sobre este encontro já fiz registro anterior, que pode ser acessado nesta mesma página.

O terceiro encontro ocorreu em agosto, tendo como local as imediações do Espaço Cultural Ruy Pereira, onde se localiza o tradicional Bar do Zé Reeira. Fiz registros da Avenida Rio Branco, importante polo comercial da cidade, e também da roda de samba puxada peço grupo "Samba da Esquina", que se apresentou no palco do referido bar, local onde correu também a roda de conversa sobre ações culturais na Cidade Alta, puxada pela arquiteta Andréa Costa, que também á professora do curso de Produção Cultural do IFRN, cuja sede se situa também na Avenida Rio Branco, vizinha ao Espaço Cultural Ruy Pereira.





O quarto encontro teve lugar no Espaço Cultural Balalaika, uma espécie de galeria e sebo, situado na rua Vigário Bartolomeu, rua em que morou o poeta modernista Jorge Fernandes, um dos temas da roda de conversa que teve como "puxadores", o jornalista Alexandre Gurgel (que falou sobre a obra do poeta), o dono do sebo, Severino Ramos, que falou sobre os sebos de Natal e sobre o Espaço Cultural Balalaika, A conversa ainda foi abrilhantada com a presença do professor Edrízio Fernandes (UFRN), que contribuiu com informações sobre a cena literária de Natal. O encontro ainda teve como atrações musicais o quarteto de Chorinho e Bruno 7 cordas; e o duo Eliana Pinheiro e Joka Costa, abrilhantando o evento com uma boa dose de jazz e MPB,





O quinto e último encontro ocorreu no sábado passado (9 de novembro), na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, tendo como tema de discussão a arquitetura religiosa no período colonial em Natal. A roda de conversa foi composta por mim e pelo professor Rubenilson Brazão Teixeira, também do DARQ UFRN. A conversa tratou de assuntos relacionados à história urbana e a morfologia / tipologia dos edifícios religiosos que formam o conjunto do sítio histórico da capital potiguar.

Na ocasião, fiz registros da igreja (externa e internamente) e também dos músicos que compuseram o duo de cordas que tocou uma série de 8 músicas sacras, finalizando com chave de ouro o evento e as atividades do projeto de extensão.






Por fim, agraço imensamente, em nome da coordenação do projeto de extensão, aos que de algum modo contribuirão para a realização e o êxito das atividades.  Em 2019 estamos programando mais uma edição, desta vez em outro bairro tradicional da cidade, o ALECRIM. E de antemão já fica o convite: 2020 será ano de desenhar e conversar sobre mais um espaço tradicional da cidade do NATAL.

23.10.19

NAS PÁGINAS ALHEIAS


Estou com os dois livros do Marcus Vinicius Batista. O que separei para ler no banheiro é QUANDO OS MUDOS CONVERSAM, uma seleção das crônicas publicadas no Jornal da Orla, entre 2007 e 2012, outros tempos, outros problemas. E mesmo lidas – uma de manhã e outra à noite -  em um ambiente de tensão, trazem o olhar de atenção carinhosa sobre o outro e sobre a cidade e seus personagens, vivos e mortos.

As capas dos livros do Marção e da Beth



O segundo, a ser editado mas o primeiro a ser lido é  O LOBO, O URSO E A CURA, escrito parceria-parceria com a sua esposa, a também jornalista Beth Soares. É o relato pessoal, visceral, algumas vezes atônito, às vezes encharcado de incompreensões, mas sempre permeado de muita luta e persistência – ninguém larga a mão de ninguém - diante do diagnóstico de lúpus que Beth foi acometida. É a jornada, de mais de dois anos, por laboratórios, consultórios, hospitais, UTI´s, farmácias e a tentativa de se salvar da burocracia, que o Estado implanta, com uma perfeição assustadora, para que os doentes resolvam, depois da revolta, dos xingamentos, da anulação, se curarem por conta própria.

Comprei o livro no dia do lançamento no charmoso Saluca Bistrô & Café, no canal 5 – precisam conhecer Santos, o plano urbanístico de Saturnino de Brito e aprenderem a se orientarem pelos números dos canais - e já na fila dos autográfos – desenhando e andando – um Marcão foi grafado na primeira folha do livro, onde ele e a Beth depositaram os seus delicados autógrafos.

O desenho do Marcão e os deliciosos autógrafos

Não há exagero ao chamar o Marcão de Marcão, pelo tamanho do corpo, do coração e da gentileza.


Foi uma tarde muito boa e recomendo que todo lançamento de livros devam ocorrer aos sábados, em um bar e que seja obrigatório encontrar os amigos e bater papo com o Leandro Marçal, a Renata Godoi Mota e a Raquel Gomes, e também, se vocês não os conhecem, mais um motivo para virem até Santos.

Na mesma noite, depois da peça TRAGA-ME A CABEÇA DE LIMA BARRETO – por favor, assistam! – li o prefácio, escrito pelo médico que acompanhou a jornada e que no final, foi sugado, com suavidade para dentro do rol de amigos.

No dia seguinte fui à praia levei pouca coisa, porque nas praias de Santos você encontra todo mundo e conversa com todo mundo, mas tenho sempre comigo caneta e caderno, mas levei também o livro ainda quente de curiosidade, para conferir as primeiras páginas, enquanto ficava de olho na filhota e no sobrinho, brincando de se transformarem em crocrete de areia.

Olha o sorveteiro, mas não era da Rochinha

Fiz o primeiro desenho, quase sem querer, quando uma moça quis saber qual era o livro que estava lendo e depois que fiz o segundo – e gostei - , o livro se transformou, quase de imediato, em um diário gráfico sobre um diário de dores e preocupações.
O Canal 3 estava assoreado e havia montes de areia para a alegria da meninada

Na praia tem sorvete e água de coco gelada, cara, mas tem.

Então abandonei o caderno de desenho por uns poucos dias e permiti que o livro fosse lido, sem pressa, entre um traço e outro, buscando fôlego para poder ganhar a empatia necessária e torcer que tudo tenha se ajustado da melhor maneira possível, que todos estejam bem, que o Urso nos proteja a todos e o Lobo tenha sido vencido.
No banheiro da casa da Sogra


Carol, colega de trabalho.

Mas preciso reconhecer que não foi a primeira vez. Fiz isso no livro do meu amigo Leando Marçal, NO CAMINHO DO NADA, mas só durante a na noite de autógrafos. Pensando bem, talvez adote esta estratégia para me defender da Flávia, que estabeleceu que um livro novo só entra em casa, quando um outro sair. Com um desenho, um registro, o livro fica muito pessoal, sem a possibilidade de ser descartado, trocado e talvez assim a minha biblioteca se mantenha intacta.

Muitas das crônicas foram lidas no ônibus. Muitos desenhos foram feitos no ônibus e desenhar no livro que se está lendo, facilita muito.

Indo ao cinema, no Gonzaga

Porque tudo muda muito rápido dentro do ônibus. Quem estava de pé, senta, quem estava sentado, desce, as pessoas mudam de lugar, por causa do sol, da chuva, porque está incomodado com quem está sentado ao seu lado, porque entrou alguém conhecido e foi colocar a conversa em dia.

Tanque de guerra para tempos de paz

Em vão, tentei quando estava mais sossegado, no descanso do lar – comercial de margarina - ilustrar o livro, com pequenas anotações, mas sem sucesso, desisti.

Desta gostei um pouco

Sou um pouco melhor – auto-elogio é tão feio - observando o mundo de frente, como de frente ambos enfrentaram uma jornada cheia de altos e baixos, que trouxe muito cansaço, para quem sofria as injeções e para quem cortava a cidade até a porta da UTI.

Menino dormindo no colo da mãe, no ônibus em Cubatão.

As pessoas se surpreendem e sempre me perguntam se é difícil desenhar no ônibus. Já fui chamado até de ninja, mas digo que cada dia que passa, andar de ônibus, depender de transporte público, não é para os fracos.

Na minha cidade, Cubatão, talvez seja ainda pior. 


Explico. Temos uma empresa de ônibus, que detém a concessão do serviço, mas este serviço não é interligado com o transporte metropolitano, então, nada de baldeação e ainda há o transporte alternativo, que de alternativo não tem nada. Percorre os mesmos itinerários do ônibus e quase sempre com o ônibus preso no retrovisor e para piorar, a empresa de ônibus atual perdeu a última concorrência e o serviço que não era nenhuma maravilha tornou-se um verdadeiro martírio, com ônibus sem horário certo e quebrando em qualquer esquina. Terror, terror e terror, com os ônibus, velhos e sucateados, sacudindo sem parar,transformando uma viagem de um pouco mais de cinco quilômetros em uma verdadeira aventura, sem final esperado. Coisa para samurais de todas as cores. 

Alguém tão grande como o Marcão.

Na maioria dos veículos do sistema alternativo, a cadeira ao lado do motorista fica vazia ou ocupada por algum conhecido, que vai debatendo com o motorista os rumos da política cubatense e a ultima decisão do Ministério Público, que exige da prefeitura, a retirada das vans de circulação. Sentei neste lugar mas virei o rosto para o outro lado, para o retrovisor.

No retrovisor, o que vejo pela frente.

Até pouco tempo atrás, me recusava a andar de van, de transporte alternativo, mas acabei me rendendo, com medo do implacável tic e tac do relógio de ponto digital instalado recentemente.

Chegar no horário

É preciso chegar no horário e sair no horário. Esperar o consumo das horas, esperar a vida passar e registrar tudo certo, inclusive o horário do almoço e ao depositar o dedão, ouvir de volta, mecanicamente, que está tudo correto, que você teve um bom dia, que você não esteve internado e o seu corpo não está inchado.
Chegar no horário

Sair no horário

Chegar em casa.

Sacolejar um pouco

E lembrar, que é dia de balé

Alguns desenhos estão fora da ordem que foram feitos, embaralhando as páginas, embaralhando a vida em sua surpreendente desordem, mas espero que este relato sobre páginas alheias seja uma fagulha em tua curiosidade, um convite para percorrer, mesmo que tatibitate, por passos vencedores, e que possa-lhe dar a noção da emoção que os autores fizeram questão de depositar em cada palavra, em cada crônica e lhe façam buscar o livro na livraria de rua mais perto – meu amigo José Luiz Tahan agradece.

E a filhota está esperando para dar seu pliês.

Porque é na rua que a vida acontece, onde encontramos as pessoas, onde nos reconhecemos nos outros, no caminho de volta para casa ou quando levo a filhota no balé, para que ela dê um monte de saltos e piruetas, enquanto fico, mais de uma hora no sofá florido, agora encapado com uma fronha azul turquesa.

A filha e a neta da proprietária do Balé

Em um canto, em um dia de chuva

No sofá, agora azul


Ao mostrar o primeiro desenho aos dois e mesmo devendo um desenho da Beth, fui autorizado, de imediato, com dois grandes sorrisos abertos ao sim, ao sim das palavras, ao sim da comunhão. Toda boa palavra deve ser repartida na mesma dose do pão.

E nas palavras do Profeta Gentileza, que gentileza gera gentileza, tudo neste livro, guia deste relato, se resume a isso, na gentileza de dividir conosco a busca da melhor solução, a gentileza de mostrar que o carinho é imprescindível para as almas, que mesmo fortes, não se querem rígidas, gentileza em não se importarem de ter boa parte do livro reproduzido para contar uma outra história e na gentileza, de permitir que um livro tão pessoal, tão intímo, fosse aberto e finalizado com as palavras de outra pessoa, que uma poeta – a Madeleine Alves é maravilhosa - acentue a trajetória percorrida por ambos, com palavras e sentimentos de acalanto e conforto.

As mãos de uma senhora segurando a bolsa e o poema final da Madeleine

Pelo pouco que os conheço, me permito acreditar que eles confiam na pele fina e resistente do amor, na promessa apalavrada de eternidade, que se mostrou flor e perfume nos momentos de entorpecimento mas também na certeza que mesmo doendo, iria passar, como realmente passou quando o Lobo feroz voltou ao seu lugar de insignificância perante aos deuses, o Urso urrou de alegria e a cura embarcou, em uma viagem por outras terras e pelo corpo transformado de Beth e o mundo, também em viagem, fez, neste dia, uma rotação mais alegre, muito mais suave, como deveria ser todas as boas canções.

         
Carlos Roque Barbosa de Jesus
22 de outubro de 2019