14.8.19

A SURRA EM ALTA VELOCIDADE


                                                                                                                                          À Piracicabana




Compartilho com alguns amigos e em especial com o Alexandre Jr., o gosto de desenhar em transporte público. Ele no conforto do metrô da capital mineira e eu, nos ônibus que cruzam esta terra úmida da baixada Santista. Como o ar está seco nestes últimos dias. Meu nariz parece uma chaminé abandonada.
Mas para isso é preciso estratégias.
Primeiro, escolher o local onde sentar e o melhor lugar é na cadeira que fica em cima do eixo traseiro do ônibus. É um lugar mais alto e tem duas vantagens: primeira – a noite você fica mais perto da luz, isto é, quando o motorista acende as luzes ou elas não estão queimadas e segundo- você se livra do risco de ter uma careca brilhante, tampando seu horizonte e saber a hora certa de colocar e retirar a caneta do papel, para que seu desenho capte o sacolejar do ônibus, mas que tenha ao menos, um pouco de nitidez.
Mas estamos em tempos de ruínas, os mais otimistas diriam tempo de reconstrução, mas não tenho tempo para eles, vejo tudo caindo de podre, espalhando cacos e pedaços, daquilo que erguemos com muito sacrifício.
E todos concordaram que transporte público nunca foi uma prioridade, ganhando mais atenção apenas do nosso sistema de saneamento básico.

Com os eventos da copa do mundo e das olimpíadas, o termo mobilidade entrou em voga, com promessa que não mais perderíamos horas do dia, presos em engarrafamento enormes e olha que já mudou muitas coisas nestes últimos anos por causa de vinte centavos de aumento na passagem, mesmo pouquíssimas pessoas tenham dado atenção ao slogan da época, que aquilo tudo começou e se espalhou por quase todo o país, não era apenas pelos vinte centavos. Era para jogar o Brasil em um outro ritmo, mesmo que continue parado.
Os ônibus do transporte público, que agora competem com o transporte alternativo de vans, que ajuda em seu sucateamento, talvez sejam a face mais nítida deste novo Brasil, que a cada dia nos faz lembrar das nossas escolhas determinadas pelo fígado, em produção de uma quantidade exagerada de bile verde e amarga.
Digo sim, porque ontem voltando de Santos tive prova cabal desta situação. O primeiro ônibus passou e não parou e que agora, me parece ser melhor e mais bem iluminado, mudando de faixa, deixando com a mão estendida no vazio.
Menos de um minuto depois chegou outro, na sorte que me sorriu, em parte, e certamente decretou mais de uma hora de espera para que perdeu os dois ônibus.
Claro, sentei no lugar mais alto para ler, terminar um livro que comecei na semana passada e diz do dizer da feitura de um outro livro, na metalinguagem que não me agrada e estava no finalzinho, duas ou três páginas e com o caderno de desenho pronto para entrar em ação.

Mas antes de chegar ao final da quadra, mudei de ideia. Simplesmente aquilo que chamam de suspensão estava ausente no mecanismo deste veículo. Passou em um buraco discreto e os bancos, que não são nada macios, não impediram que o baque violento, me fizesse sentir que o meu cóccix tinha sido partido ao meio.
Mudei para um banco entre os dois eixos, que é o lugar em que, em tese, temos a melhor estabilidade. Mas o banco estava solto. Nova mudança e onde sentei, as janelas chacoalhavam tanto, batendo uma na outra, sem a espuma de proteção que deveria existir entre eles, que tive a certeza que se partiriam em um milhão de estilhaços ao passarmos em um outro buraco, resultando em banho de cacos de vidros, afiados e cortantes.
Mudei novamente, na minha migração em viagem interna.
Mas antes de me sentar, o motorista, que estava na missão secreta de arrancar o seu progenitor do aparelho de aplicação de aniquilação por asfixiamento, fez uma curva tão fechada, arrastando a traseira do ônibus para fora da curva e lançando-me de encontro a lateral do ônibus, batendo a cabeça e o ombro direito, freando em seguida, atirando-me contra o banco da frente, machucando o outro ombro e espalhando as minhas duas mochilas – uma estava aberta – e o meu livro e o meu caderno pelo chão.
Consegui sentar, recolher as minhas coisas e desisti de ler, de desenhar, cruzando os braços, massageando o ombros e me perdendo na sensação boba de um início torturante de uma dor de cabeça.
Nunca fiz uma viagem tão rápida neste percurso e se fosse cronometrada, ainda ganharia uns breves segundos, porque desci do ônibus quase em movimento, no meio do cruzamento, onde o motorista parou em lentidão, para não dar passagem para que ninguém ousasse ficar em sua frente, atrapalhando-o cumprir sua missão. Espero, com toda fé que me restou, que tenha conseguido salvar o seu amado pai.
Cheguei em casa me arrastando, com o corpo, comumente cansado, muído e dolorido e mesmo não ficando marcas, mimetizei as costas lenhadas pelo ferro e pela chibata dos homens escravizados, em todo o seu martírio de carga e canga. Hoje as marcas mais profundas ficam na parte de dentro e um banho quente sempre nos ajuda a dormir melhor, mesmo depois, de viajar; mesmo contra a nossa vontade; para o fim do mundo.



Carlos Roque Barbosa de Jesus
09 de agosto de 2019

8.8.19

Diário de bordo. Ouro Preto, eu fui!


Ah, que beleza que foi! Uma semana inteira vivendo e respirando desenho e amizade em Minas Gerais. Essa experiência, do Encontro Nacional de Urban Sketchers, já se tonou uma tradição em nossas vidas. E dessas tradições boas, não das chatas! Um momento de parênteses nas nossas vidas, pra fazer tudo ter um pouco de sentido, né?

Bom, mas o fato é que, pela quarta vez, me encontrei com gente fantástica do Brasil todo e, numa comunhão de 300 sketchers, me deliciei com a beleza de Belo Horizonte e Ouro Preto.

Nos primeiros dias participei dos três primeiros workshops oficiais da história do Usk Brasil. Todos os parabéns possíveis à Ekaterina Churakova pelo empenho em tratar com a direção internacional e organizar tudo isso. Sei que não foi fácil. Os mestres Raro de Oliveira, Mateus Rosada e Kei Isogai deram um show. Foram dias de muito aprendizado e partilha.

Já em Ouro Preto o difícil mesmo foi decidir o que desenhar. Era beleza pra todos os lados que se olhava. Ao grande André Perdigão e todo o povo fantástico do Usk Ouro Preto e Usk Belo Horizonte, todos os parabéns. Foi um evento impecável.

Não é todo dia que se desenha uma cidade que é patrimônio histórico da humanidade. Com justiça. Que cidade linda!

Me esforcei para tentar captar um pouco dessa beleza toda e apresento aqui nos desenhos seguintes com pequenas legendas, apenas para contextualizar. Vamos a eles!

No primeiro dia, não fugi ao clichê: fui direto à Praça da Liberdade e fiz o Coreto com o edifício Niemeyer ao fundo. Domingo, praça cheia de gente. Uma alegria danada desenhar com o sol se pondo...


Workshop do Raro de Oliveira. Fomos para aruá desenhar o cotidiano. Apenas com duas cores. Chaga em mim um maluco e convoca sua horda e de companheiros. Impressionado, o figura fica repetindo incessantemente: “Duas cô, mano. O cara faz isso só com duas cô!!!”, no melhor sotaque mineires. Esperei ele se afastar e registrei a cena. Segundo o Raro, ele entendeu perfeitamente o espírito da aula! Kkkkkkkkk

Ainda na proposta das duas cores, mas agora com traço, registrei a entrada do tradicional Colégio Arnaldo

Já de tarde, no Mercado Central, não resisti aos encantos do Bar da Tia. Segundo alguns comentários, esse é um desenho do Raro. Então, acho que aprendi bem, né?

O louco do Mateu Rosada, depois de nos ensinar tudo sobre perspectiva, ponto de fuga e a técnica ninja do hang-loose, nos propôs um exercício simples: 180º da Praça da Liberdade. Todos acharam que ele estava brincando, mas era sério. Daí, deu no que deu!

Esses três desenhos foram feitos no sketchbook sanfonado da Hahnnemühle durante a aula do Kei Isogai. Foi muito bacana poder registrar toda àquela turma boa que estava aprendendo sobre o desenho de pessoas na composição de um sketch. Sem contar que nessa aula aprendo onde está a linha do horizonte. Mas não vou contar, não. É segredo, talkei?




Não poderia deixar de registar o local que abrigou os três workshops, o Hotel Ronaldo Fraga. Um local tão encantador tanto por fora quanto por dentro!

Nos dias em que saia do hotel para ir aos workshops, me encantei por essa casa. Consegui fazer o registro no último dia!

Primeiro dia de Encontro Nacional. A Praça Tiradentes é um verdadeiro marco. Não poderia ser em outro lugar. Desenhá-la já seria bom o suficiente, mas desenhá-la acompanhado de 300 sketchers foi fantástico!

Dia 2, Igreja do Pilar. Optei por desenhar apenas uma parte dela, pois queria registrar um pouco de toda aquela arquitetura colonial tão característica da região

Igreja Nossa Senhora de Conceição. Esse desenho eu fiz acompanhado das queridíssimas Alejandra Hernández e Ariane Borges, da janela do Restaurante Dirceu. Tratava-se de um quadro pronto, já com moldura. Não pude ignorar! Ah, e pra minha surpresa, encontrei lambrequins em plena Ouro Preto. É mole?

À noite, durante a confraternização, desenhei o trio Escritório do Choro, que nos brindava com um som de primeira. E olhe que eu não sou nenhum fã de choro... Esse foi um dos desenhos que mais gostei da viagem. Fiz de primeira, sem esboço, em uns 10 minutos!

Ninguém acredita, mas deu uma ventania danada quando estava desenhando a Igreja do Rosário, daí ela ficou assim. Não foi culpa minha, ok?

Tudo que é bom chega ao fim. Taí o desenho final da Igreja São Francisco. Um misto de alegria e tristeza por estar me despedindo de toda essa gente boa. Mas não tem nada. Rio 2020 já chega!

21.7.19

Brejo e Barra: História, relatos e registros de uma semana de férias

Foto de Amíria Brasil

As férias de julho foram rápidas. 10 dias. Então resolvemos fazer duas viagens rápidas pelas proximidades. Escolhemos dois lugares bem distintos sob o ponto de vista da geografia, mas que apresentam proximidades com relação ao acolhimento dos que "são de fora". E não tem quem não sai com uma boa impressão desse povo acolhedor que é o Nordestino (com "N" maiúsculo mesmo).

Primeiro fomos ao Brejo Paraibano. Uma região que é marcada por uma bela paisagem vinculada à atividade canavieira, cujos engenhos e um conjunto de médias e pequenas cidades marcam a paisagem. Fizemos nossa base de hospedagem na cidade de Areia, núcleo urbano tombado em nível federal pelo IPHAN, e que apresenta ima implantação marcante, com ocupação inicial seguindo a linha de cumeada, e com expansões em forma "tentacular". De Areia - terra do pintor Pedro Américo - fiz o registro do casarão de José Rufino, um belo exemplar de arquitetura colonial.


Fizemos uma breve visita à cidade de Alagoa Grande, terra de Jackson do Pandeiro, uma grande referência musical brasileira. A cidade está em comemoração pelos 100 anos do seu filho mais conhecido, morto em 1982.
Em Alagoa Grande fiz um desenho que enquadra a igreja Matriz, visto do Teatro Santa Ignez, outro exemplar de referência da arquitetura da cidade.


Resolvemos almoçar no restaurante do Engenho Volúpia. O engenho ainda apresenta produção considerável de cachaça, inclusive tendo sua cachaça já sido reconhecida nacional e internacionalmente. A produção ocorre seguindo os seguintes períodos: de setembro a fevereiro ocorre a moagem, e de março a agosto o replantio. À mesa, comemos uma saborosa tilápia, acompanhada de feijão verde e macaxeira cozida. Maravilha!

E ainda deu tempo de um breve descanso e de um registro na rede da varanda!


No caminho de volta a Natal, passamos rapidamente pela cidade de Bananeiras e fiz um registro das imediações da Igreja Matriz. Quando passamos em visita anterior no primeiro semestre de 2018, o casarão em amarelo, no lado esquerdo do desenho, estava em processo de restauro. Atualmente funciona um restaurante. Infelizmente não pudemos experienciar o espaço {sob o ponto de vista gastronômico e com relação à intervenção propriamente dita) pelo fato de que o dito só funciona de quinta a domingo, e estávamos na quarta. Fica para a próxima!




A segunda viagem ocorreu para a praia de Barra do Cunhaú, um lugar com uma bela paisagem e ótima gastronomia, baseada em prato que têm os peixes e o camarão como carros-chefe.
A localizada também é marcada por uma arquitetura predominantemente popular.
Em Barra do Cunhaú, fiz 3 desenhos: 2 deles registrados a partir da varanda da casa que ficamos hospedados (choveu vigorosamente no dia que chegamos, o que nos impossibilitou de percorrer a área).



Quando a chuva deu uma trégua, percorremos trecho da barra do rio, e almoçamos um a saborosa cioba frita, na barraca do Manoel, um simpático senhor que nos atendeu como fôssemos grandes amigo dele.


No caminho de volta a Natal, visitamos Vila Flor, um antigo aldeamento indígena em que se localiza a igreja de Nossa Senhora do Desterro, e que depois foi incorporado o edifício da Casa de Câmara e Cadeia, no lado oposto ´`a Igreja. O edifício da Casa de Câmara e Cadeia é tombado em nível federal. Infelizmente o que constatamos foi uma falta de manutenção / conservação do referido edifício. E mesmo a praça, apesar de apresentar um tratamento paisagístico agradável, está "tomada" por construções temporárias e até permanentes no espaço da grande esplanada, comprometendo a leitura do que foi anteriormente o aldeamento.




Ainda passamos para visitar a capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú, região marcada também pela presença do Santuário dos Mártires do Cunhaú, que é uma referência na história da luta contra os holandeses. Os mártires foram canonizados em 2017, pelo Papa Francisco.


E para finalizar, paramos para almoçar em um simpático restaurante localizado na antiga estação Papary (vila que passou a se chamar Nísia Floresta posteriormente). No cardápio um prato chamado "Camarão à Flavinha" servido no coco partido, e acompanhado de arroz e pirão. Para acompanhar a comida e para comemorar estas férias pequenas mas super bem aproveitadas, resolvi pedir uma caipirinha. Tudo delicioso!



As viagens foram um estímulo para se voltar bem, animado e pronto para os dias de trabalho!

18.7.19

Natal, Diário de Bordo - Parte XIX

Último dia no brasil.
O dia começou cedo, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O último almoço no Brasil, e que almoço… Restaurante Matulão
 
Desenhos realizados em viagem. Cada vez gosto mais de desenhar em viagem. Desenhos rápidos e sintéticos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mais uma viagem, cujos resultados superaram todas as expectativas. Um agradecimento a todos aqueles que contribuíram para o sucesso desta jornada. Um obrigado especial aos prof. José Clewton e Eunádia Cavalcante, os principais responsáveis por esta parceria.
 

11.7.19

Conheça os correspondentes: Ekaterina Churakova, de Belo Horizonte/MG

Hoje apresentamos a coordenadora do USk Belo Horizonte, Ekaterina Churakova, ou Catarina, como ela também é chamada.


Ekaterina é russa e vive no Brasil há 3 anos. Nesse pouco tempo em nosso país ela já construiu uma carreira sólida como designer e sketcher. Assumiu e deu novo gás ao USk BH, foi uma das coordenadoras do IV Encontro Urban Sketchers Brasil - Ouro Preto 2019, faz sketchbooks incríveis com a sua marca "Ah! Sketchbooks" e, reza a lenda, dança forró como ninguém! kkkkkkk

Fora tudo isso, Ekaterina ainda conseguiu tempo para assumir o perfil do USk Brasil no Instagram e está fazendo um trabalho fantástico.



Aqui está uma descrição dela por ela mesma:

"Meu nome é Catarina Churakova, venho da Rússia e sou designer e ilustradora. Há quase 3 anos me mudei para o Brasil e atualmente moro em Belo Horizonte. Terminei o Curso de Design Gráfico na Academia Estatal de Arte e Indústria Barão de Stieglitz, de São Petersburgo. O design é minha fonte de renda, mas a minha paixão é desenho e ilustração. E esta paixão me levou ao grupo Urban Sketchers. No momento, junto com alguns colegas, estamos coordenando grupo Urban Sketchers Belo Horizonte"

Instagram: @catarina_chur

Face: https://www.facebook.com/ekaterina.churakova.7

Ah! Sketchbook: https://www.facebook.com/AhSketchbook/



Na sequência, algumas belíssimas obras da Ekaterina: