1.11.15

Croquiseiro paranormal



Numa tarde na Praça Generoso Marques, Curitiba, este croquiseiro dará continuidade a sequência de desenhos solitários no entardecer de horário de verão,  desta vez ficará de costas para o Barão do Rio Branco.

Ele quer relaxar, se distanciar do dia que termina, entrar na poesia dos desenhos e habitar por alguns instantes um paraíso que o anestesia com muito prazer.

A composição desta vez envolverá dois prédios ecléticos que foram preservados e que agora atendem às demandas de um supermercado e um restaurante self service.







Ao fundo, dois prédios modernos, que ironicamente já são ruínas.  Um deles com pedigree e autoria de comprovada fama. O outro um daqueles espigões abandonados pelos profissionais da especulação imobiliária e que se tornou tela de grafiteiros e pixadores.

O croquiseiro começa a desenhar e não sabe que na verdade ele é o tema principal para alguns passantes.

O primeiro passante celebra a ação artística, puxa uma conversa que também desenha, mas que devido às demandas da vida o faz apenas uma vez por ano.  Diz que tem um estilo "diferente" e retira o celular e mostra uma foto de sua última obra: "O dezfarce". Sim, são dez faces em perfil entrelaçadas, que se escondem uma das outras.  Dez faces que não parecem nenhuma, uma camuflagem em forma de dezena.  Companheiros artistas se reconhecem nas busca de uma poesia gráfica.  Refletem e discutem que não é possível viver sem desenhar, a vida se tornaria uma insuportável monotonia.









Eis que se aproxima aquele homem de cabelos longos, um "alemão queimado", aturdido e de olhos verdes, quase saltando do rosto.  Começa com uma conversa incompreensível mas que pelo entusiasmo transmite uma admiração pelo trabalho.  Novamente parece que a poesia gráfica conquistou mais um, pensava o croquiseiro.  Mas daqui  a pouco o  passante faz uma proposta: ele gostaria que o croquiseiro desenhasse o seu filho.  Reconhecendo o padrão da conversa, o croquiseiro já se prepara para dizer que não será possível atender aquele pedido, naquele momento.  Mas o passante insiste:

— Você poderia desenhar o meu filho? Eu o enterrei faz sete dias. 

O croquiseiro se comove pois vê a razão para os olhos esbugalhados do passante: choro, saudade e provavelmente uma busca pela visualização do filho. Ele adianta que não tem uma foto, mas espera que o croquiseiro possa captar a imagem por alguma ação paranormal, já que ele é um artista.  O croquiseiro fica abalado, pois percebe que o ato de desenhar para alguns é também uma especie de habilidade mágica, quem sabe paranormal ou divina.  O croquiseiro é tomado de emoção, e é forçado a responder ao transeunte que não tem este poder.  Mas o transeunte insiste e aí, faz outro pedido:

— Você é capaz de desenhar a pessoa que matou o meu filho?

O croquiseiro não responde, não tem palavras nem traço para lidar com tamanha rogativa.  O passante desiste e se despede com saudações cordiais apesar de decepcionadas.

Depois disto cada textura do prédio passa a ganhar um significado maior para o desenhista, prédios abandonados e desejos por uma conexão gráfica com o filho morto parecem ser a mesma coisa.

Dor e desejo por alguma justiça de fim de tarde.

5 comentários:

  1. Poderes paranormais ? Talvez. Mas tremenda sensibilidade sabemos todos que esse croquiseiro tem ...

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  2. Adorei a excelente postagem! Texto, desenhos e imagens... paranormal mesmo! Muito sensível e mais urbano do que isso... #sktechcronicaurbana! As imagens do "bigbrother" foram fundamentais para dar o tônus da presença da dinâmica urbana. Parabéns José Marconi!!!

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    1. Realmente as fotos deram todo o contexto para se entender

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  3. És um bruxo!! Retratar essas características decadentes desses prédios só tento um sensibilidade fora do serio.Lindos desenhos!!

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  4. Excelente texto. Realmente muitos pensam que é mágica, quando eu falo em treinar, treinar e treinar (leia-se desenhar, desenhar e desenhar rsrs) as pessoas ignoram e continuam dizendo: " realmente é um dom..." rsrs

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