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26.7.16

Diário Gráfico: abstraindo o cotidiano

Diário Gráfico: abstraindo o cotidiano

Carro e bomba de gasolina, quintal com bomba d'água, mangueira, cajueiro e gato

Após o #53 Encontro USk Salvador em Plataforma fomos a um maravilhoso almoço na casa do grande Mestre Nei Barreto. À propósito foi o mote de visitar a marcenaria do seu pai - o Grande Mestre Gogliarte, fantástico artista visual e exímio escultor da cena modernista do Estado da Bahia. Mas fomos agraciados, famintos que estávamos depois do encontro de croquis... por uma deliciosa feijoada carioca!

Antes mesmo... passeamos, como já fiz diversas vezes, naquele humilde sítio da distinta família, e percorremos obra a obra de detalhes arquitetônicos feitas com extremo esmero e afinco pelo amigo Gogliarte, na sua e nas casas de seus filhos. Escadas, guarda-corpos, empenas, estruturas de telhados, tesouras, chanfros, ondulações, arremates, encaixes, cachorros de telhados, barrotes empenados, montantes encurvados... tanta maestria técnica e artística para com um dos mais nobres materiais construtivos: a madeira. E só ao fim, chegamos à marcenaria - aquele templo mágico de Gogliarte.

Infelizmente, ou melhor, felizmente... boquiabertos nós companheiros, e eu mais uma vez, não dispomos de nenhum momento para desenhar estas maravilhas. Mas talvez um dia faremos um Encontro USk neste bucólico ambiente se a família o permitir.

E se o leitor se perguntar... mas o que é que tem a ver o carro e a bomba de gasolina, o quintal com bomba d'água, a mangueira, o cajueiro, o gato? Nada. Eu sai dali tão inspirado que não parava mais de desenhar o que via... desenhar o cotidiano do posto de gasolina onde abastecemos o automóvel, o quintal da casa de Alê (mais uma vez, dentre dezenas de vezes) e isso em companhia do distinto modelo felino Frodo.

Essa postagem é apenas para refletir o quão abstrato pode ser uma página de um Diário Gráfico de um Urban Sketcher. Não ter um propósito lógico, claro, pré-determinado, consciente. Apenas desenhar... e tentar chegar próximo à arte do Mestre Gogliarte, e fazer dos nossos materiais de desenhos e dos desenhos do nosso cotidiano, o nosso templo do desenho.

Obrigado ao Mestre Nei e à sua família por nos proporcionarem momentos tão felizes.

André Lissonger



27.11.15

Um Diário Gráfico sobre o Rio de Janeiro/RJ

"(...) em busca do tempo perdido"
Marcel Proust





Aproxima-se o verão... lembro-me do verão passado. Algumas memórias são interessantes, outras nem tanto. Relutei algum tempo para postar nesse site a série de desenhos feitos na última viagem à minha terra natal: o Rio de Janeiro. E isso por um lado, por ter achado-a incompleta, e por outro, pela minha preguiça em juntar os fragmentos de impressões vertiginosas causadas por acúmulos de lembranças de minha infância unidos ao ocaso de algumas esperanças e de algumas experiências humanas. Passado esse ano, guardo e compartilho alguns momentos através desse diário gráfico que me é muito caro.


Rua do Ouvidor; Rio de Janeiro/RJ.

São fantásticas essas estreitas ruas e becos do Centro Histórico do Rio de Janeiro. Com essa escala de estreiteza é possível até encontrar ótimas zonas de sombra, em meio ao calor de 40 graus. Mesmo com a malha regular, guardam milhares de surpresas, micro universos. Dezenas de bares e restaurantes e, em especial, excelente comida carioca e centenas marcas de cerveja. Em especial carne seca desfiada com feijão preto de caldo ou, para o lanche, sanduíche de pernil com provolone. "[...] em busca do tempo perdido" me ocorre a lembrança de andar com minha mãe desde daí até a Uruguaiana ou no "Saara"... através de um ou dois únicos e extensos "becos", evitando as largas e barulhentas avenidas.


Para desenhar nessa cidade quando o sol e calor ultrapassam a temperatura dos 40 graus, às vezes, é necessário um exercício de meditação e concentração no objetivo do desenho. Um breve skecth de alguns poucos minutos parece se tornar um estudo de algumas dezenas de minutos. A depender do ângulo escolhido, sem sombra então, é uma interessante ginástica e modo de perder algumas calorias. Entretanto isso não foi suficiente para me deixar de recordar, ao desenhar o ponto de fuga central na Avenida Presidente Vargas ou ao rever o entorno da Candelária, das minhas andanças na área do Centro com minhã querida mãe e meus tios maternos.

Avenida Presidente Vargas . Rio de Janeiro/RJ
 
Entorno do Centro Cultural Banco do Brasil e França-Brasil, desde o Adro da Igreja da Candelária. Rio de Janeiro/RJ.


Central do Brasil

De modo geral as estações modais possuem grande importância na minha vida... pessoal enquanto reminiscências da infância em Piabetá/RJ, pelas andanças através dos bairros de Madureira, Olaria, Bonsucesso, Duque de Caxias/RJ, mas também pela minha formação e vida profissional como Arquiteto e Professor (por isso, nem cabe aqui minha paixão pelo Subúrbio ferroviário de Salvador e os trilhos de São paulo e Minas Gerais, capítulos à parte). Mas a Central do Brasil possui significado especial... não só por conectar a memória do Brasil e suas ferrovias por demais esquecidas, as extensas paisagens territoriais, o cheiro do ferro e do óleo desde a adolescência, mas por marcar a ida e vinda das pessoas em nossas vidas. Neste verão passado, esta estação (de) e (re) marcou afetivamente minha vida. Era sinal de alegria e de melancolia, de nascer do sol e de ocaso. E assim reside em minhas lembranças.




Restaurante Bar Cacimba, Lapa

Para um croquizeiro, em especial os baianos, uma das coisas mais bacanas de se escolher um lugar para comer é saber equalizar comida boa e barata com cerveja gelada e vista para temas/motivos possíveis de se desenhar. Não pelas vistas, pois o Ecletismo do tecido urbano daLapa é muito interessante; mas nessa combinação "matreira" foi difícil encontrar "o lugar" onde se desenha-almoça. Com uma excelente carne seca desfiada com feijão preto de caldo, aliado aos outros ingredientes, a receita foi a melhor possível. Almocei e jantei diversas vezes, pois lembrava a comida de minhas avós..

Vista para o Casarão que abriga o Restaurante Cacimba . Lapa, Rio de Janeiro/RJ

Sketch na Lapa . Rio de Janeiro/RJ


Arcos da Carioca, Lapa

43 graus Ceusius de calor. Sketch feito pela manhã, desde o abrigo de um ponto de ônibus. E em "companhia" de uma garota de programa, que acabara sua noite de trabalho, e insistia em fumar e beber e beber mais cerveja enquanto olhava o desenvolvimento do desenho ao meu lado. Ao fundo, a Catedral de São Sebastião e o Edifício Petrobrás. Hidrográficas e aquarela sobre papel 200gr/m2.

Arcos da Lapa . Rio de Janeiro/RJ


MAC, Niterói/RJ...

É impagável uma ida e vinda à Niterói através das barcas, evitando o tráfego da ponte. Não só pelo cheiro de maresia, misturado ao diesel e de outras incríveis memórias, mas por abraçar com o vento o spray marítimo, ouvir os sons das ondas ou dos barcos, ou outro murmúrio compondo, poder ver o sfumatto da paisagem diluindo a hierarquia das montanhas, pães de açúcar e corcovados, tocar e sentir não só a textura das velhas janelas em madeira e a gastura do ferro oxidando, mas as lembranças do sal, do suor e da umidade. Diante disso, é incrível a sensação de voltar à infância, lembrando das minhas idas e vindas junto com minha avó, em meio ao seu árduo trabalho de venda de tecidos - e isso bem antes de Niemeyer repousar sua nave. É indescritível atravessar RJ-Niterói-RJ navegando pela Baía, porque sempre me vem aquela sensação de que o tempo do relógio para, e, por breves instantes, entra em questão o tempo proustiano.

Museu de Arte Contemporânea, Niterói/RJ


Posto 6, Copacabana, A Princesinha do Mar.

A Meca do Stand Up!

Através de um sketch acompanhado com a gentil e SUP família de Marco Antônio Gorayeb [abraços a Isaac e esposa]. MAHALO!!!

Regado a um excelente shopp, esse coquis procura retratar a prática do surf stand up nessa que é um dos lugares mais indicados na Praia de Copacabana.

"Com areia clara e fina, Copacabana é uma das mais conhecidas praia do mundo e com seus 4 km de orla, serve de palco para grandes eventos como campeonatos de futebol de areia e vôlei de praia, além da sua famosíssima festa de Réveillon.

A "Princesinha do Mar", como também é conhecida, tem uma excelente infra-estrutura, com quiosques, patrulhamento, serviço de salva-vidas, duchas, sanitários e ciclovias e sua larga faixa de areia... vive cheia de gente de todas as partes do mundo, a qualquer hora do dia.

A praia tem cinco postos de salvamento que são excelentes referências geográficas. Sua faixa de areia é muito longa (exceto próximo ao Posto 6), o que lhe concede a prática de diversos esportes. Na areia, o turista pode encontrar diversos produtos a venda. Bebidas, comidas, protetores solares, bijuterias e cangas (i.e toalhas que se usa para poder deitar na areia) estão à venda em todo lugar. O mar aí costuma ser calmo com ondas pequenas, mas é bom evitar nadar para longe.

No verão e, principalmente, nos fins de semana, o número de frequentadores da praia aumenta consideravelmente. Vale a pena, ainda, visitar o Forte de Copacabana no Posto 6, palco de eventos históricos do Brasil e sede do Museu Histórico do Exército".

Praia de Copacabana . Rio de Janeiro/RJ 


Praia de Botafogo

41 graus Ceusius, 11:00h. Mormaço absoluto [O Pré-Sal perde!]. É muito árduo desenhar a capital do Rio de Janeiro em pleno verão. Às vezes alguns lugares muito interessantes são ermos e sem sombras... e quando se acha a sombra, o enquadramento não ajuda. Todavia, como eu adoro esse lugar... a gente pondera/equaliza a situação e a vista (à sombra de um ipê rosa).

Enseada do Botafogo . Rio de Janeiro/RJ

Enseada do Botafogo . Rio de Janeiro/RJ


Ipanema, vista para o Morro Dois Irmãos.

Fim de tarde em Ipanema é algo de fantástico. Nesta tarde os humores de uma possível chuva se aproximavam. Banhando a paisagem de tensão e dramaticidade... raios de luzes do por do sol somadas ao peso dos algodões de chumbo aumentam o alto grau de melancolia do "intermezzo". Para minha felicidade, um grupo de MPB começa a tocar bossa-nova no mesmo local - todo o clássico repertório. Um presente dos deuses. Como já comentei nas imagens do MAC e da Rua do Ouvidor, somados agora ao tempo atmosférico, outras sensações do tempo proustiano se revelam. Nada de chuva, tudo de Jobim, Vinícius, Chico, Joni El, Chet Baker, Adelmo Santos... heim? ‪#‎twilight‬ ‪#‎intermezzo‬‪#‎luscofusco‬ ‪#‎watercolour‬ ‪#‎rj‬ ‪#‎usk‬ ‪#‎usksalvador‬


Praia de Ipanema . Rio de Janeiro/RJ

Set Tools
  • Hidrogáficas Unipin Mitsubish, 0.2mm;
  • Aquarela Winsor & Newton, 24 colours;
  • Sketchbook Moleskine tipo watercolour.

André Lissonger


24.11.15

Caderno de Desenhos de Viagens - Sabará/MG

A última visita à cidade de Sabará/MG foi bastante interessante. Em especial por ter conhecido e estar hospedado no antigo Solar Sepúlveda. Esta aparente "casa mal assombrada" oferece uma peculiar ambiência oitocentista, que reforçava o clima barroco da nossa viagem. Uma pena que não tive mais energia para desenhar a casa, mas não deixei de fazer uns três registros de partes desta interessante cidade. 



Igreja de Nossa Senhora do Ó . Sabará/MG

Mágica! Na sua ambiência. E majestosa no seu interior. Um dos meus "teatrinhos" barrocos prediletos. Um dos mais preciosos monumentos do Barroco brasileiro. É tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, juntamente com o Centro Histórico de Sabará e os conjuntos da Rua Direita.

ps.: "Nossa Senhora do Ó é um nome alternativo para Nossa Senhora da Expectação do Parto ou do Bom Parto. O nome "do Ó" surgiu do hábito de se cantar antífonas na véspera da comemoração do seu dia festivo, que iniciavam com uma exclamação ou suspiro, Oh!".




Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos; Sabará/MG

"Quem vê as ruínas da igreja não imagina o que há escondido por trás das grandes paredes de pedra sem reboco, a céu aberto. A obra, iniciada em 1768, foi abandonada com a abolição da escravatura, em 1888. A muralha, porém, protege uma antiga capela de taipa, de 1713".

Técnica: caneta hidrográfica de 0,1mm sobre papel 300gr/m2.
Tamanho: 9 X 26 cm.

André Lissonger

21.11.15

Caderno de Desenhos de Viagens - Congonhas/MG

A nossa última passagem por Congonhas/MG (antiga Congonhas do Campo), recentemente, foi bastante rápida. Mas o suficiente para alguns sketches em hidrográficas. Não tinha ainda desenhado o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, que sempre foi objeto de estudo nas minhas aulas sobre a arquitetura barroca brasileira, bem como com links para a arquitetura moderna brasileira... especial a de Oscar Niemeyer e o paisagismo de Burle Marx. Dessa vez, o desenho me ajudou a enxergar outros detalhes (em outros tempos, desapercebidos) da delicada implantação de cada uma das pequenas capelas que compõem o belíssimo Santuário.




André Lissonger   

17.11.15

Caderno de Desenhos de Viagens - Ouro Preto/MG



Praça Tiradentes. Esse breve croquis em hidrográficas foi feito sentado no alto do monumento central, em homenagem à Tiradentes. Daí a perspectiva com a linha do horizonte e ponto de fuga "por sobre as pessoas". Segundo a história, esse foi o local onde a cabeça do mártir da independência, Joaquim José da Silva Xavier, foi exposta. Compõem essa vista o Museu da Inconfidência (área central) e o casario. Desse lugar trago, hoje comigo, uma memória muito especial e de grande estima... ganhei uma belíssima aliança de presente de aniversário.





Restaurante e Pizzaria Spaghetti. Rápidos desenhos feitos durante um bom pate papo, uma excelente pizza e ao som de Cat Stevens. Esse aconchegante lugar em Ouro Pretotrata-se do aproveitamento de um porão alto e um subsolo que se conecta ao fundo de um típico lote de influência da ocupação colonial portuguesa. Desníveis e penumbras, ótimo para a ambientação de uma cantina ou taverna à la italiana. Apertado, enquanto estreito, permite observar melhor os frequentadores... bem como alguns detalhes da ambiência.

Interior da Igreja de Nossa Senhora do Carmo


Esquerda: Eu e Alê Kirkwood . Direita: Entorno da Igreja de Nossa Senhora do Carmo  


Paisagem em Ouro Preto/MG



André Lissonger

Caderno de Desenhos de Viagens - Tiradentes/MG



A cidade de Tiradentes é de fato, um lugar belíssimo.

Acima, Chafariz São José de Botas . Abaixo, casario colonial da cidade.

Esquerda: sketch da Igreja de Sto. Antonio. Direita: Eu, Alejandra Kirkwood, e Bob Dylan.



Rua Resende Costa - Tiradentes/MG

Charmosa rua com casario colonial desta linda cidade. Aí concentram-se diversas lojas de artesanato, jóias, arte e antiguidades. Este desenho foi feito desde um restaurante do outro lado da praça arborizada, proporcionando a visada em panorama. Hidrográficas e aquarela sobre papel de 300gr/m2.


Acima, Capela dos Passos da Paixão . Abaixo, croquis do entorno da Igreja Matriz de Santo Antonio

André Lissonger

13.11.15

Caderno de Desenhos de Viagens - São João Del Rey/MG


Estudando as obras do barroco mineiro, e nessa oportunidade, as de Aleijadinho em São João Del Rey/MG, no entorno da Igreja de São Francisco de Assis. 

"A igreja, começada em 1774, é um dos principais marcos da arte colonial brasileira, tornando-se famosa pela beleza de sua arquitetura, pela riqueza de sua talha e pela participação nas obras do mestre Aleijadinho, autor do projeto, mais tarde modificado por Francisco Cerqueira. Devido à sua importância, a igreja foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) junto com todo o seu acervo".

Abaixo, à direita, o croquis em sépia é o suporto original do projeto atribuído ao Mestre Aleijadinho.


Croquizando e resenhando com Alejandra Kirkwood, estávamos estudando nichos, proporções e lendo o inventário das obras do Mestre Aleijadinho... fomos flagrados pelo paparazzi Andre Fraga (incluo mais fotos divulgadas no Instagram). Sendo que todos os sketches são em hidrográfica - 0,1mm e aquarela.

Entorno da Igreja de São Francisco de São João Del Rey . MG


5 rápidos sketches desde o interior da pizzaria em frente à Igreja de São Francisco  


1.11.15

Croquiseiro paranormal



Numa tarde na Praça Generoso Marques, Curitiba, este croquiseiro dará continuidade a sequência de desenhos solitários no entardecer de horário de verão,  desta vez ficará de costas para o Barão do Rio Branco.

Ele quer relaxar, se distanciar do dia que termina, entrar na poesia dos desenhos e habitar por alguns instantes um paraíso que o anestesia com muito prazer.

A composição desta vez envolverá dois prédios ecléticos que foram preservados e que agora atendem às demandas de um supermercado e um restaurante self service.







Ao fundo, dois prédios modernos, que ironicamente já são ruínas.  Um deles com pedigree e autoria de comprovada fama. O outro um daqueles espigões abandonados pelos profissionais da especulação imobiliária e que se tornou tela de grafiteiros e pixadores.

O croquiseiro começa a desenhar e não sabe que na verdade ele é o tema principal para alguns passantes.

O primeiro passante celebra a ação artística, puxa uma conversa que também desenha, mas que devido às demandas da vida o faz apenas uma vez por ano.  Diz que tem um estilo "diferente" e retira o celular e mostra uma foto de sua última obra: "O dezfarce". Sim, são dez faces em perfil entrelaçadas, que se escondem uma das outras.  Dez faces que não parecem nenhuma, uma camuflagem em forma de dezena.  Companheiros artistas se reconhecem nas busca de uma poesia gráfica.  Refletem e discutem que não é possível viver sem desenhar, a vida se tornaria uma insuportável monotonia.









Eis que se aproxima aquele homem de cabelos longos, um "alemão queimado", aturdido e de olhos verdes, quase saltando do rosto.  Começa com uma conversa incompreensível mas que pelo entusiasmo transmite uma admiração pelo trabalho.  Novamente parece que a poesia gráfica conquistou mais um, pensava o croquiseiro.  Mas daqui  a pouco o  passante faz uma proposta: ele gostaria que o croquiseiro desenhasse o seu filho.  Reconhecendo o padrão da conversa, o croquiseiro já se prepara para dizer que não será possível atender aquele pedido, naquele momento.  Mas o passante insiste:

— Você poderia desenhar o meu filho? Eu o enterrei faz sete dias. 

O croquiseiro se comove pois vê a razão para os olhos esbugalhados do passante: choro, saudade e provavelmente uma busca pela visualização do filho. Ele adianta que não tem uma foto, mas espera que o croquiseiro possa captar a imagem por alguma ação paranormal, já que ele é um artista.  O croquiseiro fica abalado, pois percebe que o ato de desenhar para alguns é também uma especie de habilidade mágica, quem sabe paranormal ou divina.  O croquiseiro é tomado de emoção, e é forçado a responder ao transeunte que não tem este poder.  Mas o transeunte insiste e aí, faz outro pedido:

— Você é capaz de desenhar a pessoa que matou o meu filho?

O croquiseiro não responde, não tem palavras nem traço para lidar com tamanha rogativa.  O passante desiste e se despede com saudações cordiais apesar de decepcionadas.

Depois disto cada textura do prédio passa a ganhar um significado maior para o desenhista, prédios abandonados e desejos por uma conexão gráfica com o filho morto parecem ser a mesma coisa.

Dor e desejo por alguma justiça de fim de tarde.

29.9.15

Caderno de Desenhos de Viagens - Mário Campos/MG

Noturna na Encruzilhada em Mario Campos/MG

Pois é... parece estranho, mas é isso. Após um estafante mas maravilhoso dia em Inhotim, não conseguimos pousada em Brumadinho/MG. Nossa decisão em viagem de carro não era voltar à BH, mas seguir viagem em busca do barroco mineiro mais ao sul do Estado. Circulando pelo início da noite e meio frustrados, continuamos estrada até chegar à essa pequena cidade. Ao conseguirmos finalmente hospedagem, seguimos a tentar comer e beber alguma coisa... Em uma das poucas ruas, de um sábado às 20h da noite, quase nenhum estabelecimento estava aberto. E, o pior, em uma pizzaria não vendia cerveja e estava para fechar. E em um outro vizinho que tinha uma sinuca daquelas com o pano verde já estriado pelos tacos, não vendia cerveja e nenhuma cachaça. E ainda em um outro lugar tinha a propaganda de um maravilhoso macarrão na chapa, mas não vendia cerveja. Compramos dois (enormes), "para viagem", e saímos em busca de uma cerveja, ou melhor, se possível, de uma cachaça, pois o frio estava incomodando... Continuamos até a saída/entrada da cidade - uma encruzilhada - Rodovia/Ferrovia. Aí tinha uma lanchonete de empadas e, ainda bem, vendia cerveja (de uma marca de latão), mas não cachaça. Abrimos o macarrão na chapa, até tentamos, mas ambos viraram alimento... graças ao amigo Andre Fraga, para a população canina da cidade, ali mesmo na encruzilhada. Pedimos umas duas empadas... mas, também infelizmente, não estavam do nosso "exigente" gosto. "emoticon unsure"

Aí, sorvendo alguns goles de cerveja, e mais relaxados, Iniciei uma "urban" aguada que virou essa noturna da dita encruzilhada... Enfim, o ponto alto do momento foi a passagem de uma enorme composição de 140 vagões.

Então, aí é Black Lamp Winsor & Newton em bisnagas + algumas Unipin Mitsubish sobre papel de 300 gr/m2.

Noite em Mario Campos/MG


Amanhecer em Mario Campos/MG

Após a incrível saga "em busca da cerveja perdida", descrita no post anterior... nos restou, nessa viagem, o resto da noite para um bom descanso. Fácil, deitar e dormir "que nem pedra". Pois é ‪#‎sqn‬, pois a cidadezinha está situada à beira de uma importante via férrea para o escoamento de minério. O que na noite anterior tinha sido o ponto alto, a cinética imagem da passagem da composição de 140 vagões pela encruzilhada... (e pensei com meus botões, deve ser a última composição...) tornou-se um pesadelo ao longo da madrugada. Composições de análogo tamanho passeiam pelos trilhos de Mario Campos durante à madrugada... com altos avisos de buzina de trem. Pelo menos conseguimos contar umas cinco delas... Ao acordar pela manhã, muito sonolento, tive uma bela visão do território ferroviário e dos belos montes que compõem o seu hinterland. Para começar o dia, uma aquarela e uns breves exercícios de sfumatto sobre esta paisagem.

Amanhecer em Mario Campos/MG



Folha do sketchbook citado

Caderno de Desenhos de Viagens - Inhotim, Brumadinho/MG



Alejandra Kirkwood e André Lissonger: desenhando a Galeria Adriana Varejão

28.9.15

Caderno de Desenhos de Viagens - Lagoa da Pampulha, BH

Páginas de um sketchbook produzido em viagem, com papéis de tamanho A4 e gramatura 300gr/m2. Mais de duas dezenas de sketches em hidrográficas e aquarela com vistas externas e internas dos principais edifícios que compõem o conjunto projetado por Oscar Niemeyer na Lagoa da Pampulha (Belo Horizonte/MG).

Cassino da Pampulha . Atual Museu de Arte Moderna

Vistas feitas da Bias Fortes, e da Pampulha até a Igreja de São Francisco e o Cassino

André Lissonger, flagrado em descanso ativo... na Lagoa da Pampulha

Depois da Praça da Liberdade, um croquis da Casa do Baile


Alejandra Kirkwood e André Lissonger, na Casa do Baile

Casa do Baile

André Lissonger e Alejandra Kirkwood na Casa do Baile

Vista da Pampulha até o Cassino . Sketches da Igreja de São Francisco

Igreja de São Francisco da Pampulha