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23.8.15

Para que serve um diário gráfico? Parte 2


Segunda parte de minha tentativa de responder a provocação do do Eduardo Salavisa (especialista e autor de vários livros sobre o tema) sobre as  funções de um diário gráfico.
O texto a seguir é uma tentativa pública e informal de explicar algo que ainda estou tentando entender e teria, portanto, apenas uma função exploratória quase especulativa.  As tradicionais categorias da função da linguagem como a poética, documental, expressiva já foram discutidas na Parte1, agora ilustramos as que restam: metalinguística e apelativa.

Serve para comentar visualmente os desenhos em si

Uma composição formada por elementos gráficos que explicam-comentam-expandem-complementam-dialogam a obra em em si constitui um desenho "metalínguistico", pois a "metalinguagem" pode ser definida como o uso da linguagem para descrever aspectos da própria linguagem que está sendo utilizada. A linguagem metalinguística faz enunciados sobre a própria linguagem, ou seja, qualquer livro que ensina a desenhar usando desenhos para explicar como fazê-lo é um livro metalíngustico.

No caso do diário gráfico esta abordagem serve para responder as seguintes possíveis perguntas:
  • Que recurso gráfico eu uso para "chamar" a atenção desta parte do desenho?
  • Qual detalhe do desenho eu desejo ampliar de modo a "explica-lo" melhor?
  • Vou encaixar um texto "dentro" deste desenho para explicar algum detalhe?
  • Será que se eu usar uma foto ela "dialogará" com o desenho?




Página onde o desenho representa o próprio desenhista desenhando. 
O desenho registra o próprio ato de desenhar, ou seja, é metalínguistico por natureza. Aeroporto Viracopos em Campinas, Brasil, 2015.



Detalhe de um desenho da Lia Rossi, onde a técnica usada, por ser mais mais detalhada e realista, reproduz a textura e relevos da Casa dos Bicos, a qual havia sido apenas sugerida no desenho maior desenvolvido pelo autor. 
Um desenho "complementa" o que outro apenas "sugere". Casa dos Bicos, Lisboa, Portugal, 2015.




O texto e o desenho principal fazem menção ao que a protagonista esta fazendo: planejando o passeio do dia seguinte. 
Entretanto a colagem do chá "chama" atenção para o ato da protagonista estar bebendo chá, ou seja, um desenho "promove" uma observação específica sobre o tema do desenho maior. Praga, República Tcheca, 2013.


 

Ná pagina esquerda é feito um detalhamento da serralheria  que parece ilegível à direita. 
O desenho representa os lendários Corvos protetores do São Vicente.   
No canto superior direito, um mapa "revela" a localização do tema desenhado.  Em resumo, um desenho amplia um detalhe do outro e o mapa mostra a relação do nosso desenho com o desenho urbano de Lisboa. Portugal, 2013.




Qualquer capa de livro é inevitavelmente um exercício metalínguisto, pois ocorre uma auto-referenciação, ou seja, os desenhos da capa do diário gráfico "resumem" o que será mostrado nas páginas internas. Portugal 2015.



As cores da folha verdadeira define o tom outonal ao desenho.  As cores utilizadas para representar a construção estão em harmonia com as da folha.  Uma imagem "dialoga" com a outra e faz-nos perguntar: as folhas secas sairam das árvores desenhadas? Budapeste, Hungria, 2013.




Como parte de uma oficina ministrada pelo autor, cópias de desenhos de vários croquiseiros foram distribuidas  entre eles, o objetivo era criar uma nova composição onde de alguma forma os desenhos "conversassem" entre si, mesmo que para isto fossem criadas perspectivas irreais ou proporções incoerentes.  Torres Vedras, Portuga, 2015.



Uma viagem aérea é sempre um sonho (ou um pesadelo), aqui embalado pelas aventuras de Cinderela em busca de seu Príncipe. A colagem da revista de borda "revela"  o que Lia Rossi assiste durante sua viajem de volta a Curitiba. 
Voo TAP 71, Lisboa-Galeão, 15 de junho de 2015.





Serve para sugerir, instruir ou influenciar o leitor

Um desenho que tenta convencer o leitor a fazer algo, persuadi-lo a pensar diferente, ensina algo ou contribui para formação de opinião sobre um determinado tema, é uma desenho com função "apelativa". O objetivo é influenciar o leitor do diário, convencê-lo de algo ou dar instruções em tom imperativo.

Frequentemente o diário gráfico registra as boas decisões tomadas durante a viagem e o desenho se transforma numa celebração gráfica da decisão. Criam-se desenhos mostrando um museu e coloca-se o comentário na forma imperativa: "vale a pena retornar aqui!".  Por outro lado, decepções também são registradas e se transformam em tentativas de deixar "advertências" para o leitor.  Frequentemente usamos o diário como um arquivo de impressões sobre um lugar, o qual consultaremos para saber, por exemplo,o nome daquele hotel "maravilhoso" ou daquele restaurante ruim.  Nestas páginas temos o uso de superlativos gráficos.

Algumas das perguntas possíveis:
  • Como eu faço para chegar a um determinado lugar?
  • Como eu registro que este lugar, comida ou contexto é muito bom ou ruim?
  • Quais os horários de funcionamento de um determinado serviço?
  • Como convencer o leitor a fazer ou desistir de algo que julgamos importante? 


 

Registro da decepção que foi planejar a visita ao Museu e aprender que naquele determinado dia ele estaria fechado. Mensagem do diário gráfico: lembre-se de na próxima viagem verificar quais dias os Museus ficam abertos, inclusive até mais tarde ou com desconto! Viena, Austria, 2013.






Alguns dos destinos exigem a troca de mais de um meio de transporte e vários pontos de monitoramento e de tomanda de decisão para mudança de rota.   As instruções registradas no diário são imprescindíveis para mostrar o caminho certo.  Acima, rota de onibus para Feira da Ladra, Budapeste, Hungria, 2013.







Aviso: evite a comida vendida no trem; além de caríssima é horrível no sabor. De Viena para Praga, 2013.





O mais típico uso da função apelativa: fazer publicidade de uma ideia.  Esta página foi usada para divulgar nosso desejo de trazer o Simpósio Internacional do Urban Sketchers para Paraty, conseguimos!
Curitiba, PR, 2013.


Conclusão

Concluo esta contribuição dizendo que as possibilidades de expressão poética, documental, expressiva,  metalinguística e apelativa são apenas uma das maneiras possíveis de explorar conceitualmente as funções de um diário gráfico.  Outra coisa que não podemos perder de vista é que uma composição gráfica pode simultaneamente dar várias respostas a várias perguntas, portanto, cabe ao leitor escolher o que ele deseja resgatar de um diário gráfico.

Para que serve um diário gráfico?
Para navegar graficamente a vida, pois, como dizia o poeta, isto é preciso.


Epílogo

Abaixo, video resumo de nosso diário gráfico da viagem a Portugal.  Nesta oportunidade participamos do Encontro Internacional de Desenho de Rua em Torres Vedras.  O video é dedicado aos companheiros de viagem e aos que lá encontramos.  Também é dedicado aos demais colegas do grupo Croquis Urbanos Curitiba que ficaram cuidando do nosso grupo. Música de Ana Moura "Águas Passadas".
A ilustração que aparece num papel colado no minuto 2.01 é de autoria de Daniel Silvestre.










10.8.15

Para que serve um diário gráfico? Parte 1


Numa palestra do Eduardo Salavisa (especialista e autor de vários livros sobre o tema) se discutiu sobre as funções de um diário gráfico, entre elas a provocadora afirmação de que não serviria para "nada".  Fazer diários gráficos é um experiência recente, comecei a apenas duas viagens.  A primeira em 2013 (Londres, Budapeste, Viena e Praga) e mais recentemente para Portugal (Lisboa e Torres Vedras).

Estimulado por esta provocação, decidi pensar sobre as funções possíveis de um diário gráfico e para isto usarei de maneira bastante informal as tradicionais categorias da função da linguagem para estruturar meus devaneios. Já aviso aos acadêmicos mais rigorosos que  isto é uma tentativa pública e informal de explicar algo que ainda estou tentando entender e teria, portanto, apenas uma função exploratória.
Abaixo você lerá a primeira parte do texto, se você quiser ler a segunda parte visite Parte 2.

Serve para documentar

Vamos começar pelo mais fácil de explicar e entender: um diário gráfico teria uma função documental com caráter denotativo, ou seja, buscaríamos registrar da maneira mais crível possível aquilo que vimos e experimentamos. Sua função adquire um tom de reportagem gráfica com o desejo de facilitar uma interpretação do que foi desenhado.  Registramos respostas para algumas perguntas como:
  • Quais lugares eu visitei?
  • Quem eu conheci?
  • O que comi e bebi?
Onde eu estive? Mapas, adesivos, setas tentam comunicar onde ficamos em Portugal, ou seja, no Bairro da Alfama.

        

Com quem eu estive? Desenhando durante o almoço com os novos colegas portugueses e espanhóis.  Os adesivos respondem as peguntas: o que bebemos e onde comemos. Desenhos dos rostos dos colegas André Duarte, Carlos e Célia. Comemos deliciosos espetos de polvo e lula.  Bebemos o "vinho da casa" do Restaurante o Gordo.

O que eu vejo quando espero pelo meu avião que me levaria para Portugal? Terminal internacional do Aeroporto Viracopos em Campinas, São Paulo.

      

Quem dormia (e quase babava) durante a viagem de volta a Curitiba? Voo da Gol "Linhas Aéreas Inteligentes".

Serve para se expressar

Quase como uma oposição ao tom documental, surge a função expressiva, a qual foge da "neutralidade" do registro de uma circunstância.  Buscamos um registro gráfico daquilo que estávamos "sentindo" durante o processo de observação (alegria, satisfação, alívio, solidão, saudade, etc).  Na função expressiva ocorreria uma conversa do desenhista com ele mesmo, onde comentários textuais e gráficos adquirem uma dimensão de introspecção, por vezes tão densa que provavelmente o leitor não decifrará uma mensagem coerentemente, somente o autor teria a chave para compreendê-la. A busca para algumas achar respostas para as perguntas abaixo motiva o desenho.
  • O que eu estou sentido neste momento?
  • Eu estou gostando deste lugar?
  • Minha linguagem gráfica registra a alegria e emoção que estou sentindo enquanto faço este desenho?


As linhas leves indicam o grande alívio de chegar em Lisboa e reencontrar a companheira com seus cabelos ao vento, a vista da ponte é etérea e testemunha os efeitos da bebida levemente entorpecedora. Estávamos no Mirador da Igreja da Graça em Lisboa.



A marcha da passagem dos representantes da fé católica, a música da banda, o cheiro de incenso alimentam uma linguagem gráfica que representaria a emoção e intensa alegria de testemunhar, ao lados de pessoas amigas, este momento da mais tradicional e popular cultura portuguesa. O tema é apenas sugerido e, para o autor, não poderia ser de outra forma visto que a procissão evoluía rapidamente.


 

Serve para fazer poesia

Se levarmos a abordagem expressiva às suas últimas circunstâncias daríamos uma função plenamente poética para nossos registros. As páginas do diário gráfico se transformariam numa busca de especulações, experimentos e da intensificação da força expressiva dos materiais empregados, não importando necessariamente o que estaria diante do observador.

As "respostas" advindas desta poética aventuram-se nos limites expressivos da linguagem e material gráfico empregado. Assim, o diário se torna um repositório de experimentações poéticas onde o objetivo é gerar surpresas gráficas e prazer estético para o desenhista bem como para o leitor. Neste caso aquilo que se vê é apenas uma desculpa para gerar um desenho bonito e estimulante visualmente. Algumas perguntas criativas:
  • Como eu faço para aplicar harmonias de cores monocromáticas?
  • Vou usar várias texturas de papel, será que o resultado ficará bonito?
  • Comprei este material de desenho, quais linhas e texturas poderei gerar com ele?

Na composição acima quis promover uma exaltação gráfica ao potencial poético das colagens, técnica que alias adoro praticar.  O objetivo era mostrar como catar, compor e colar imagens encontradas numa Praça de Torres Vedras e como elas poderiam se tornar um tema em si, não importando necessariamente o que ali estava sendo registrado, ou seja, pura poesia. 
Claro que a verve poética também foi alimentada pelo ponto de partida documental, neste caso o professor Lauro Monteiro aparece na imagem.


Um poesia gráfica onde cacos de papel brotam do pincel da colega portuguesa Teresa Ogando, sentada no chão de uma Praça de Torres Vedras.


As funções apelativa e metalinguística vou deixar para uma próxima postagem.
Neste ínterim, aguardo reações dos leitores.







       

21.5.15

Espaços públicos e privados

Prefiro fazer, sempre que possível, meus deslocamentos a pé. A percepção do ambiente construído, sem a mediação do automóvel, ou a velocidade aumentada de qualquer outro meio, é muito mais intensa para o pedestre.
Quando, ainda, o caminho é rotineiro e bem conhecido, procuro variar o percurso, buscando desvios e caminhos alternativos. Muitos dos desenhos que faço, principalmente nas cidades que frequento, repletas de paisagens habituais para mim,começam por um percurso deste tipo.
Nesta busca por percepções renovadas, sinto especial interesse por locais nos quais percebo uma ruptura do traçado urbano habitual. A rigidez com que são delimitados o espaço público, separado, sem transição, do espaço privado dos edifícios por muros ou grades, torna-se, nesses locais, um livre jogo de conceitos espaciais habitualmente estanques.


Nesta, que é uma das casas de um conjunto de três (Rua General Osório, em Santa Bárbara d'Oeste- SP), não há, como nas demais, muros separando-as da rua. Um escada dá acesso a um piso elevado, que serve como espaço de transição da casa para a rua. Enquanto desenhava, um funcionário do supermercado em frente saiu do depósito, subiu a escada à esquerda e alimentou, com verduras vencidas, as galinhas que são criadas na laje, sobre a garagem.



Percorrendo a Rua Osny Martins Cruz, me deparei, em seu trecho final, com uma rua sem saída. À esquerda, descobri um pequeno beco, bloqueando com elementos de aço a passagem de motocicletas. Durante as duas horas que levei para fazer este desenho, muitas pessoas utilizaram este beco como passagem.


Dias depois, voltei ao local e atravessei o beco, para desenhá-lo do outro lado. A impressão que se tem é a de, ao entrar no quintal de uma das casas, encontrar uma rua, repleta de crianças jogando bola, pulando corda ou amarelinha.



Há ainda este tipo de ocupação, sempre informal, com alguns melhoramentos (o mínimo necessário, acredito) trazidos pelo poder público. Em zonas limítrofes, quase sempre encontro pequenas praças arborizadas pelos moradores. Aqui, trata-se de uma rua sem saída (Rua Francisco Godoy de Camargo, em Santa Bárbara d'Oeste- SP), uma das últimas de um bairro interrompido pela Rodovia Luiz de Queiroz, que aparece ao fundo.

19.11.14

Encontros de Fotografia e Desenho Urbano de São Carlos -SP

Tentamos, de uns dias pra cá, pensar formas de promover a atividade de Urban Sketching em São Carlos. Nossa cidade tem, acredito, grandes possibilidades de formar grupos de desenho com encontros regulares. O principal motivo é a existência aqui de duas faculdades de arquitetura e urbanismo. Outro seria a presença de dois campus da USP e da sede da UFScar, o que faz com que a cidade, de porte médio, receba uma grande quantidade de jovens estudantes, quase sempre aberta a experiências desse tipo. Nossa primeira tentativa foi promover os Encontros de Fotografia e Desenho Urbano, em conjunto com o curso de fotografia da Fundação Pró-Memória de São Carlos. São encontros noturnos, com duração de duas a três horas e abertos a quem quiser participar. Posto aqui os desenhos que realizei nestes três primeiro encontros.
Ponto de ônibus da Avenida São Carlos. Desenho do primeiro encontro

Rua Rafael de Abreu Sampaio Vidal. Segundo encontro.

Escola Álvaro Guião, os amigos fotógrafos Dany Hladkyi e Renato Nishimura e o baterista da banda de jazz que tocava na Confraria onde terminamos o  terceiro encontro.

9.2.12

guardanapos


Foi Sylvio de Podestá quem me influenciou, no uso dos guardanapos como base para desenhos. Desenhos rápidos, descomprometidos, produzidos em momentos de boa conversa com amigos. Temas principais: arquitetura, cidade, vida.