23.7.16

UMA NARRATIVA SOBRE A FORÇA DA SIMPLICIDADE, presente nos cantos e recantos de nossas cidades.

Eu e minha companheira Eunádia aproveitamos a última semana de férias do meio do ano de 2016 para fazermos uma viagem seguindo a rota da BR 101, rodovia que interliga vários estados do nordeste brasileiro. O foco da viagem foi a realização de registros em alguns núcleos urbanos da Paraíba e Pernambuco que representam em sua estrutura urbana, algumas características morfológicas / tipológicas das cidades coloniais brasileiras. Com esse intuito visitamos as cidades de Cabedelo, na Paraíba, e Goiana e Igarassu, em Pernambuco. Os registros que se seguem dão conta desta primeira parte da viagem.

Em Cabedelo fomos especificamente visitar a Fortaleza de Santa Catarina, um belo exemplar de arquitetura militar portuguesa que faz parte do conjunto de fortes que foram construídos para defendera costa brasileira de possíveis ataques de “estrangeiros”. A sensação negativa que se tem ao chegar ao edifício – devido a interferência que ocorre na paisagem, causada pela presença muito próxima de uma área de tancagem do Porto da cidade em relação ao bem tombado em nível federal, é amenizada quando adentramos o conjunto d fortificação. O que podemos observar e uma sucessão de edifícios que se complementam (capela, alojamentos, casa do Capitão-mor...), articulados por uma generosa área de pátio, todos circuncidados pela muralha propriamente dita. Salienta-se também o uso adequado dos materiais (notadamente as aparelhagens em pedra) que dão ao conjunto uma tectônica peculiar.









Seguindo o trajeto pela BR-101, entramos na cidade de Goiana, em Pernambuco. Em seu centro histórico, tombado em nível federal, pudemos observar uma das principais características dos sítios históricos coloniais brasileiros: os espaços religiosos como um dos principais elementos estruturadores do espaço urbano. A cidade é plana e as ruas são geralmente largas. Por estas ruas conseguimos fazer um percurso em que identificamos articulações entre boa parte dos templos religiosos católicos. Notamos também que a maioria das igrejas não são dotadas de lardos à sua frente (das que visitamos, excetuamos apenas o conjunto carmelita).














Outro núcleo visitado com este intuito foi o da cidade de Igarassu, também em Pernambuco. Neste, passamos menos tempo (já estávamos em processo de retorno à Natal). Em Igarassu, a presença da arquitetura religiosa também é forte, porém com algumas diferenciações com relação ao que vimos em Goiana: observamos a presença marcante da ocupação dos elementos estruturadores do espaço urbano em um elevado (duas igrejas e a casa de câmara e cadeia em especial), com o conjunto religioso da ordem franciscana aparecendo ao fundo do morro. Ao lado pode-se apreciar uma vista interessante do resquício de mata atlântica.

Rodeando o morro, podemos observar a presença de mais duas igrejas, e de interessantes visadas que possibilitam descortinar a relação entre a arquitetura religiosa e o casario baixo e bem colorido. Estas visadas foram exatamente os alvos dos registros realizados na cidade.

Essas visitas me instigaram cada vez mais a pensar em uma atividade de formação que vise construir um quadro de registros de um conjunto de núcleos coloniais espalhados por parte do nordeste brasileiro, incluindo, além de Goiana e Igarassu, os sítios históricos de Natal, João Pessoa, Olinda, Recife (na verdade, o bairro de Santo Antônio), indo até as Alagoas, para incorporar os sítios históricos de Penedo e Marechal Deodoro. Tratarei de possibilitar a realização desta atividade.








Mas ... a viagem não parou por ai.

Devo destacar de forma especial os três dias que passamos em Recife, na companhia dos amigos Natália Miranda e Fábio Araújo, que nos propiciaram passeios maravilhosos!

Primeiro fomos “dar uma volta” no bairro do Recife, para mim, “parada obrigatória”. Fiz um registro do Marco Zero e do recém-“meio”-inaugurado Cais do Sertão, projeto do escritório Brasil Arquitetura, que sempre trouxe para seus projetos a boa influência do olhar “antropológico” de Lina Bo Bardi. No “Cais” registrei um trecho do “Rio São Francisco”. Do Marco Zero trouxe a lembrança de um belo por-do-sol.







No segundo dia no Recife, fomos ao parque de Jaqueira. O objetivo era um pouco inusitado: quando ainda graduando na Universidade Federal do Ceará, realizei pesquisas sobre a cidade de Icó, hoje reconhecida como Patrimônio Nacional pelo IPHAN. Um dos documentos que mais me chamou atenção foi um parecer elaborado pela arquiteta Cláudia Girão Barroso - à época arquiteta do IPHAN-RJ – através do qual foi empreendida uma análise acerca do referido núcleo urbano, sob forma de percurso pela cidade. Em um dos trechos do documento, a arquiteta se reporta à tipologia de uma das igrejas (a famosa igrejinha de Nossa Senhora do Monte), traçando um paralelo com a tipologia da capela do Parque da Jaqueira, no Recife. Esta informação sempre me chamou a atenção, porém ainda não tinha ido conferir in loco, o que veio ocorrer agora, quase 25 anos depois!











E, finalmente ... fechamos o ciclo de visitas de uma forma bem interessante: há tempos que falava para a amiga Natália que sempre me chamou atenção no Recife, a presença de pequenos conjuntos espalhados pela cidade, que mesmo sem conhecer muito, me passavam uma ideia de espaços pitorescos, pequenas “ilhas” localizadas no caos da metrópole. Desta vez, Natália nos levou a três desses espaços: o Poço da Panela, Apipucos e o Largo de Santa Cruz, na Boa Vista.

Fica claro que cada um desses espaços tem as suas particularidades. No entanto, para mim ficou cada vez mais nítido essa ideia que cada um destes espaços guarda sua atmosfera de espaços pitorescos. Em Santa Cruz e no Poço da Panela, meus registros foram realizados em mesas de bar (Bar Santa Cruz e Bar do seu Vital). Em Apipucos, a vegetação impões sua marca e sua força na paisagem, criando um microclima que nos seduziu.















Não posso deixar de dedicar esta pequena narrativa aos amigos – DE SEMPRE – Natália Vieira e Fábio Araújo.


3 comentários:

  1. Olá Clewton, já fiz alguns tímidos registros da Fortaleza de Santa Catarina e se quiser companhia nas próximas visitas em João Pessoa e redondezas pode contar comigo. Será um prazer fazer registros ao lado de um sketcher tão experiente como você. Abraço.

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    1. Valeu Elio. Quando estiver em Jampa na próxima te procurarei.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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